Cultura | 24-02-2026 18:00

Artur Fonseca tem 80 anos e um sonho por cumprir: abrir um museu rural em Santarém

Artur Fonseca tem 80 anos e um sonho por cumprir: abrir um museu rural em Santarém
Artur Fonseca rodeado pelas suas preciosas peças da colecção. - foto O MIRANTE

Há quase 50 anos que Artur Fonseca guarda a memória do mundo rural numa garagem em Secorio. Aos 80 anos, continua à espera que as promessas políticas saiam do papel e que o seu espólio ganhe portas abertas ao público antes que seja tarde demais.

Numa garagem discreta em Secorio, nos arredores de Santarém, o tempo não passa. Ali acumulam-se alfaias agrícolas, carros de bois, bicicletas antigas, balanças, ferramentas de ofícios desaparecidos e centenas de objectos que contam a história de uma ruralidade que marcou gerações. Mais do que uma colecção, é uma vida inteira reunida por Artur Fonseca, que no dia em que celebrou 80 anos abriu as portas a O MIRANTE com orgulho, mas também com uma mágoa antiga: o museu rural prometido continua por concretizar.
A história começou há quase meio século, quando ainda percorria as ruas de Santarém a vender pão, actividade que exerceu durante 49 anos. O contacto diário com a população fez nascer a colecção. “Levavam-me peças que já não queriam. Depois a palavra passou e quando alguém tinha algo antigo para deitar fora, sabia que eu ficava com aquilo”, recorda. Hoje perdeu a conta ao número de objectos, mas sabe exactamente onde está cada um. E garante, sem hesitar: “Nenhuma peça está à venda”. A recusa já lhe custou propostas tentadoras. “Houve um senhor que me ofereceu 45 mil euros por algumas peças. Disse que não. Ia ficar com um vazio muito grande. Isto são mais do que objectos”, afirma. Entre os tesouros guarda o ferro de engomar da mãe, a cadeira de barbeiro herdada do sogro com as respectivas ferramentas, e maquinaria agrícola que usou em criança, quando aos oito anos já trabalhava no campo com os pais.
O bunho, arte que aprendeu aos 10 anos, ocupa também lugar central na garagem. Sofás, cadeiras e outras peças moldadas pelas próprias mãos testemunham um saber que considera em risco de desaparecer. “Ensino quem quiser aprender, mas não há ninguém. E o bunho também está a acabar na natureza. Antes havia em todo o lado”, lamenta, enquanto mostra um sofá que levou oito dias a concluir.
A ideia de transformar o espólio num museu não é nova. Ao longo dos anos, vários autarcas elogiaram o valor histórico da colecção e reconheceram o seu potencial cultural. Mas as intenções ficaram, até agora, pelo discurso. Actualmente, a esperança de Artur Fonseca recai na Junta de Freguesia de Moçarria, cujo presidente manifestou vontade de avançar com o projecto. O coleccionador acompanha a promessa com entusiasmo contido. “Já ouço falar disto há tantos anos… Espero que seja desta”, diz. Enquanto o museu não sai do papel, a garagem mantém-se aberta a visitantes. Já por ali passaram curiosos e até excursões. O espanto de quem descobre objectos que só conhecia dos livros é, para si, a prova de que o museu já existe, ainda que informal.
Adepto assumido do Sport Lisboa e Benfica, guarda também algumas recordações do clube oferecidas por um amigo “do coração”, reforçando a dimensão afectiva de um acervo onde cada peça tem história. O futuro, porém, inquieta-o. Os filhos não mostram interesse em dar continuidade à colecção. E é essa incerteza que reforça o apelo. “Ficava muito triste se isto desaparecesse. Não é só a minha vida que está aqui. É a memória de uma época”, afirma.

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