Nem o mau tempo travou o quartão: Chamusca saiu à rua para cumprir a tradição
Nem a chuva intensa travou o jogo do quartão na Chamusca. A tradição centenária voltou a sair à rua na Quarta-Feira de Cinzas, juntou 91 pessoas à mesa e percorreu a vila entre vinho, barro partido e memórias partilhadas.
Choveu sem tréguas, mas ninguém arredou pé. A tradição falou mais alto e a Chamusca voltou a cumprir o ritual da Quarta-Feira de Cinzas com o jogo do quartão, num dia de convívio, memória e resistência às intempéries. A celebração realizou-se a 18 de Fevereiro e começou, como manda a regra não escrita, com o almoço de bacalhau com grelos na sede do Grupo Dramático Musical, que reuniu 91 inscritos. À mesa reforçaram-se amizades e afinou-se o espírito para o momento mais aguardado do dia.
Depois do repasto, uma carrinha carregada de quartões juntou-se ao grupo no Largo da Igreja da Misericórdia, ponto de partida do jogo há cerca de 30 anos. Antes do primeiro lançamento, houve tempo para evocar a memória dos antigos jogadores que, por diferentes motivos, não marcaram presença, num momento de respeito que antecede sempre a folia.
Debaixo de chuva intensa, o grupo percorreu as ruas da vila, lançando os quartões de mão em mão, tentando evitar que se estilhaçassem no chão. Nem todos resistiram. Pelo caminho, alguns cântaros de barro pagaram o preço do azar e os responsáveis, como manda a tradição, pagaram a respectiva multa. Entre lançamentos, o cortejo fez paragens em tabernas e cafés, onde não faltaram copos de vinho e petiscos. A cada esquina, a mesma certeza: enquanto houver quem jogue, o quartão não morre.
O presidente da Câmara da Chamusca, Nuno Mira, participante assíduo desde a adolescência, sublinha o simbolismo do momento. “Faz parte da cultura chamusquense, da nossa identidade. É um dia bem passado entre amigos”, afirma, destacando que muitos participantes chegam mesmo a marcar férias para garantir presença neste ritual anual que junta gerações. Também Vítor Malaquias, organizador da celebração há vários anos e jogador empenhado, recorda que o pai começou a jogar aos 19 anos, numa altura em que a tradição já vinha de trás. Sobre a origem do jogo, admite que há várias versões, umas apontam para as mulheres da terra, outras para os homens do campo, mas reforça que o essencial é garantir que os mais novos mantenham viva a herança.
História, regras e resistência
O jogo do quartão é uma tradição centenária da Chamusca, de origens incertas mas raízes profundas. Tudo terá começado com brincadeiras em torno dos quartões de barro e com uma regra simples: quem partisse o jarro pagava uma rodada aos companheiros. Hoje, a lógica mantém-se. O objectivo é lançar o quartão sem o partir. Quem o deixa cair e o estilhaça paga cinco euros de multa, além da inscrição. São utilizados cerca de 100 quartões por edição, encomendados anualmente a um artesão que os produz propositadamente para o evento. A organização mantém-se independente, sem apoios oficiais, por princípio dos fundadores, que defendem a preservação da essência da tradição. Com o passar dos anos, muitas das antigas tabernas desapareceram, mas o espírito resistiu. O almoço de bacalhau consolidou-se como momento de convívio prévio e, ao final do dia, cumpre-se o Enterro do Galo, ponto alto de sátira e memória colectiva, onde se recordam, com humor mordaz, os episódios mais caricatos vividos na localidade ao longo do último ano.


