Cultura | 01-03-2026 19:00
“Paixão” transforma Tomar num palco a céu aberto para questionar a maior narrativa da História
Espectáculo de Carlos Carvalheiro estreia a 29 de Março e propõe uma leitura humana, política e inquietante da crucificação de Jesus.
A cidade de Tomar vai recuar dois mil anos no tempo, mas com os pés bem assentes no presente. No dia 29 de Março, estreia “Paixão”, a nova criação escrita e encenada por Carlos Carvalheiro, que promete transformar ruas, largos e edifícios históricos num grande auto medieval contemporâneo. Mais do que revisitar a via-sacra, o espectáculo propõe uma pergunta incómoda: e se a maior história do Ocidente for também um exercício de construção política?
Ao afirmar, no material de apresentação, que “a cruz era linguagem política” e que “a ressurreição foi contralinguagem”, o espectáculo não pretende afrontar a fé, mas deslocar o olhar. Carlos Carvalheiro é claro: o foco não está na dimensão teológica nem no milagre enquanto “ex machina”, mas na lógica humana de causa-consequência. “Não nos preocupa a questão da fé no sentido de a afrontar, mas também não a defendemos. Interessa-nos o mecanismo humano”, explica a O MIRANTE.
A partir dos textos dos evangelhos, a encenação parte da hipótese de que os acontecimentos da Paixão podem ser lidos como um percurso estrategicamente construído. Nesta abordagem, Jesus surge como alguém que organiza o seu próprio destino, consciente de que aquele caminho de sofrimento seria necessário para cumprir as escrituras e ser reconhecido como o Messias. Um líder que, tal como outras figuras históricas, molda o seu percurso para responder a um contexto de ocupação e opressão.
Carlos Carvalheiro não hesita em traçar paralelos históricos, evocando até a tese explorada por Eça de Queirós em “A Relíquia”, onde a narrativa bíblica é relida sob uma lente crítica. Aqui, a derrota aparente não é fracasso, mas parte de uma construção simbólica maior. Ainda assim, o encenador sublinha: o espectáculo não oferece respostas fechadas, deixa interrogações suspensas.
Um auto medieval com 200 participantes
Espalhada por vários pontos da cidade de Tomar, “Paixão” recupera a tradição do teatro medieval, quando as representações religiosas ocupavam adros de igrejas e largos públicos, envolvendo a comunidade. Serão 10 cenas, com início às 14h14 e partidas de 15 em 15 minutos, num percurso que deverá prolongar-se por cerca de duas horas, incluindo as procissões entre locais. Ao todo, a produção pode envolver até 200 participantes, entre actores e figurantes. Um número impressionante que reforça a dimensão colectiva do projecto e a sua vocação pública. Mais do que um espectáculo de palco, trata-se de uma experiência imersiva, onde o público caminha com a narrativa e é confrontado com ela no espaço urbano.
A peça sugere paralelos entre o ambiente político do século I e a actualidade, onde a manipulação da informação pode redefinir realidades. Mas, novamente, sem doutrinação. “Não nos compete emitir certezas”, sublinha o encenador. A intenção é criar espaço para reflexão. No final, fica uma pergunta dirigida aos espectadores: o que estamos dispostos a sustentar hoje? A fé? A verdade? A dúvida?
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