Sociedade Recreativa Pintainhense quer fazer do centenário a rampa para o futuro
Há 99 anos que a colectividade é o coração cultural de Pintainhos. Agora, à porta dos 100, quer transformar a celebração num ponto de viragem para garantir mais um século de vida, identidade e comunidade.
A Sociedade Recreativa Pintainhense deu início, no passado dia 15 de Fevereiro, às comemorações do seu centenário com a ambição bem definida: consolidar o presente e projectar o futuro. O programa “1 século, 12 meses, 12 temas” marca o arranque de um ciclo comemorativo que se estende até Fevereiro de 2027, data em que a colectividade assinala oficialmente 100 anos de existência. Fundada em 1927, então sob a designação de Grupo Musical Pintainhense, a associação nasceu na pequena aldeia de Pintainhos, no concelho de Torres Novas, num contexto rural onde o acesso à cultura era escasso e dependia quase exclusivamente da vontade e da mobilização popular. “A cultura e os fundamentos da cultura não aconteciam com facilidade”, recorda o presidente da direcção, Francisco Jerónimo, natural da terra, sublinhando o espírito pioneiro dos fundadores.
A primeira actuação pública do grupo musical remonta a 1926 e, em 1932, foi criada a Escola de Música, lançando as bases de uma tradição formativa que marcou gerações. Em 1935 arrancou a construção da sede, inicialmente modesta, mas ampliada ao longo dos anos, com uma intervenção profunda em 1994 que permitiu recuperar e modernizar o edifício. Nas décadas de 30 e 40 viveu-se um período de grande dinamismo, com o grupo musical a integrar 26 elementos, maioritariamente de Pintainhos e aldeias vizinhas. Nos anos 40 nasceu o grupo de teatro, cuja actividade regular se manteve até à década de 70, levando espectáculos dentro e fora da aldeia.
A partir daí, o êxodo da população jovem e adulta para os grandes centros urbanos e a degradação das infraestruturas provocaram um abrandamento da actividade. Ainda assim, a Sociedade Recreativa Pintainhense nunca fechou portas. Sobreviveu ancorada na memória colectiva e num forte sentimento de pertença à terra.
Nova direção quer criar centralidade
O centenário surge agora como “alavanca” para uma nova fase. A direcção que tomou posse a 17 de Janeiro de 2026, composta por 15 elementos, muitos deles naturais de Pintainhos ou com fortes ligações familiares à colectividade, quer devolver à sociedade o papel de ponto de encontro da comunidade. “Criar centralidade, ser o ponto de encontro das diversas pessoas”, resume Filomena Pereira, membro da direcção e responsável pela estruturação do programa cultural. A ideia passa por adaptar a colectividade às realidades actuais, sem desvirtuar o legado histórico. “Manter a tradição e projectar o futuro” tornou-se lema. O programa “1 século, 12 meses, 12 temas” aposta numa oferta cultural regular ao longo de um ano, abrangendo música, dança, teatro, literatura e outras expressões artísticas. A estratégia é clara: experimentar, avaliar e ajustar. “Se as pessoas experimentarem novas realidades, perceberemos qual será o melhor caminho para desenhar o nosso futuro”, explica Filomena.
Entre as iniciativas previstas estão exposições, workshops, espectáculos de magia, teatro infantil inspirado em “Alice no País das Maravilhas”, bailes, caminhadas ambientais, campeonatos tradicionais, noites de fados e, já em Janeiro de 2027, a actuação da Orquestra Típica Scalabitana. Está ainda agendada a peça “Antes de Fugir”, baseada em Dom Quixote. A abertura das comemorações contou com recepção ao som do saxofone por Rui Sá, exposição de marionetes e máscaras, apresentação do plano anual, medley musical por Susana Alves e porto de honra com as “Cristas de Pintainhos”, especialidade criada com a colaboração do chef Ricardo Carola.
Tradição, memória e novos desafios
A direcção pretende também recuperar tradições antigas da aldeia, como os serões de rua, as histórias partilhadas, os jogos tradicionais e o convívio comunitário fora da sede. Paralelamente, tem reforçado a articulação com outras associações locais, criando redes de colaboração para dinamizar o território de forma conjunta. Actualmente, a sociedade conta com cerca de 100 sócios, embora esteja em curso uma actualização da base de dados. Em termos financeiros, beneficia de apoios da junta de freguesia e está a apresentar candidaturas municipais, procurando ainda parceiros para viabilizar o ambicioso programa.
O maior desafio é captar público, sobretudo jovens, e melhorar a divulgação. “Sabemos que é um projecto ambicioso, mas não se faz nada sem ambição”, afirma Francisco Jerónimo, confiante de que o centenário será a “âncora decisiva” para definir o rumo das próximas décadas. A caminho dos 100 anos, a sociedade quer provar que a tradição não é passado, mas sim o futuro em construção.


