Helena Guerra: morreu uma mulher forte, frontal e generosa
Helena Guerra foi uma mulher ilustre de Vila Franca de Xira que teve uma vida cheia de sonhos concretizados. Morreu no último Verão deixando um vazio que perdura na cidade até hoje. Foi casada com dois homens que têm estátua em Vila Franca de Xira, e com o também já falecido cineasta António-Pedro Vasconcelos, que partiu a 5 de Março de 2024.
Maria Helena Guerra morreu a 15 de Junho do ano passado, o mesmo ano em que completaria 88 anos de vida, mas a sua falta continua a ser sentida em Vila Franca de Xira, terra onde foi uma figura singular e respeitada, não apenas por ter estado próxima de personalidades marcantes da cultura portuguesa, mas pela sua presença humana, elegante e discreta, que ficou na memória de muitos da sua cidade.
Uma “mulher elegante e bela que esteve ligada ao cinema e à cultura durante toda a sua vida”, recordou João Soares na sua página pessoal ao saber da partida de Helena Guerra. “Conheci a Maria Helena aquando da rodagem do filme “Mudar de Vida”, de 1965, de Paulo Rocha, de quem ela foi assistente. Era uma mulher deslumbrante”, lembrou.
Conhecida pelo seu sorriso e resiliência, e pela capacidade de agregar pessoas, a sua trajectória de vida foi pautada por um profundo sentido de preservação das tradições locais. Incluindo até no simples gesto de estender a mão a um vizinho em dificuldade. Diz quem a conhecia que Helena Guerra personificava o espírito ribatejano: forte, frontal e generosa. A sua vida afectiva e familiar cruzou-se com figuras de destaque ao longo dos anos, que O MIRANTE sempre foi acompanhando: foi casada com o cineasta António-Pedro Vasconcelos, um dos mais conhecidos realizadores portugueses contemporâneos, falecido a 5 de Março de 2024; e também com o diplomata e escritor Álvaro Guerra, figura literária e cultural de referência de Vila Franca de Xira, cuja obra e legado continuam presentes na cidade e que morreu a 18 de Abril de 2002. Posteriormente também casou com o matador de toiros Mário Coelho, outra personalidade profundamente ligada às tradições taurinas e culturais de Vila Franca de Xira, desaparecido em Julho de 2020 vítima de covid. A relação com Mário Coelho aproximou-a ainda mais do universo tradicional e festivo da cidade ribatejana, onde sempre gostava de estar presente enquanto a idade o permitiu.
Helena Guerra nasceu num ano marcado pelo agravamento das tensões internacionais que preparavam o caminho para a Segunda Guerra Mundial, com a Guerra Civil Espanhola a atingir um dos seus momentos mais dramáticos com o bombardeamento de Guernica, que inspirou a célebre pintura de Pablo Picasso. Desde cedo Helena Guerra se destacou por ter uma personalidade que combinava sensibilidade cultural, espírito aberto e uma elegância que muitos comparavam às grandes damas de outras épocas. Tal como foi descrito em páginas de homenagem à sua morte, fazia lembrar as divas do cinema e da literatura, não pela vaidade, mas pela intensidade com que viveu e participou em ambientes criativos e artísticos.
Sabia ser uma presença discreta mas calorosa, alguém que se tornava facilmente amiga e confidente, mantendo sempre uma postura de serenidade e humanismo. Quem a viu em eventos públicos, como inaugurações, encontros culturais ou momentos de homenagem, recorda alguém que oferecia atenção, partilhava histórias e manifestava um sincero interesse pelas pessoas à sua volta. Uma das suas últimas presenças públicas foi num evento de solidariedade em Vila Franca de Xira promovido pelo filho, o coleccionador, galerista e empreendedor Pedro Jaime Vasconcelos, em Setembro de 2023, quando a saúde frágil da idade já não lhe permitia grandes aventuras fora de casa.
Helena Guerra foi uma mulher ilustre de Vila Franca de Xira que teve uma vida cheia de sonhos concretizados. Viveu em Vila Franca de Xira e os sonhos cumpriu-os à sua maneira, continuando a ser recordada, principalmente pelos amigos, como uma personalidade marcante, daquelas que embora sejam cidadãos do mundo vivem sempre com as raízes presas ao chão ribatejano.


