Ana Miranda: “só aprendemos sonhando”
Ana Miranda voltou para Fortaleza, terra onde nasceu, depois de muitos anos a viver no Rio de Janeiro, Brasília e outras cidades do Brasil, por razões pessoais e profissionais. A escritora está a dar uma master class que lhe proporciona uma imersão no ofício da escrita, e lhe permite falar de criação, memória, pesquisa e imaginação.
Ana Miranda, a cearense mais conhecida no mundo, vai voltar ao romance depois de alguns anos de interregno, em que para além de ter publicado pequenos livros, pintou e desenhou centenas de quadros, para além de ter publicado a sua "Bionírica – Uma biografia sonhada”, uma obra lançada em 2024 que mistura literatura e artes visuais, revelando o universo íntimo da autora através de desenhos produzidos ao longo de sua vida. O livro, considerado uma "biografia onírica", retrata o feminino e o inconsciente, com ilustrações criadas como um diário secreto, mergulhando na imaginação e nos sonhos da escritora, e que tem a vantagem de reunir desenhos e pinturas que vêm desde a sua infância.
Considerada a precursora do novo romance histórico brasileiro, desde que em 1989 publicou, pela Companhia das Letras, o livro “Boca do Inferno”, Ana Miranda nunca mais deixou de editar grandes livros, muitos deles premiados, mas acima de tudo considerados como de grande qualidade, fazendo de Ana Miranda uma das mais brilhantes figuras da literatura brasileira, e a mais portuguesa de todos as escritoras e escritores brasileiros. “O Retrato do Rei”, “Musa Praguejadora”, “Dias & Sias”, “Semíramis”, “Amerik”, “Desmundo”, e a “Última Quimera”, são apenas uma pequena parte de uma Obra que reúne mais de três dezenas de títulos, o que faz da autora uma imortal da literatura do mundo, sem precisar de pertencer a escolas, academias e grupos de influência. O facto de os seus livros mais importantes serem retratos do Brasil quando ainda era colónia portuguesa, ajuda a conhecer muito da História de Portugal, como não é possível encontrar em outro romancista de língua portuguesa.
O MIRANTE está a assistir em Fortaleza a partes de uma master class que a escritora está a realizar na sua terra natal, para onde voltou para ficar; mais uma vez podemos confirmar o seu génio, a sua ligação à literatura e ao seu público de proximidade, sem a necessidade de se proteger da fama, dos caçadores de autógrafos ou dos jornalistas de fofocas. Ana Miranda foi actriz aos 18 anos, hoje tem cerca de 70, e desde essa altura que faz um percurso de vida, artístico e literário, de fazer inveja ao mais famoso padroeiro dos escritores e artistas plásticos.
A recordação de alguns escritores com quem conviveu
Numa das salas da Editora Armazém da Cultura, sempre acompanhada por Albanisa Dummar, Ana Miranda reúne cerca de duas dezenas de leitores e admiradores da sua Obra, e sobre o mote de “Todo o romance é histórico”, a autora de “Xica da Silva” e abre o livro da sua vida e ainda faz experiências com os seus leitores e seguidores, a maioria deles também autores ou profissionais ligados aos livros.
A master class vai ter 20 sessões, cada uma com cerca de três horas de duração, começou a 3 de março e vai até 29 de abril. Até agora todos os participantes estão rendidos ao génio da autora, que conviveu de perto e foi amiga de Clarice Lispector, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, amiga, discípula e também musa inspiradora de Rubem Fonseca, que a ajudou, quando escrevia com lágrimas e suor o livro “Boca do Inferno”, o romance que ainda hoje é uma das suas grandes criações, que foi um mergulho tão grande na vida brasileira do século XVII que há cerca de 12 anos a motivou a escrever e publicar “Musa Praguejadora- uma Biografia de Gregório de Matos”, um livro único, para figurar para sempre na História da literatura de língua portuguesa, a que pertencem Camões, Sá de Miranda e Padre António Vieira, publicada no Brasil pela Record e em Portugal pela Editora Rosmaninho.
Só aprendemos sonhando
Os sonhos, sempre os sonhos, estão na origem de uma boa parte das ideias para os livros de Ana Miranda. Os sonhos acompanham a criação artística de Ana Miranda desde criança, quando começou a desenhar, ainda sem saber escrever. Para Ana Miranda “nós somos povoados por sonhos, os gregos acreditavam que os sonhos eram mensagens dos deuses. O nosso mundo dos sonhos é o mais importante, e o que mais devemos cuidar, os índios, que vivem culturas diferentes das nossas acreditam que só aprendemos sonhando”.
“Todos os dias acordamos com o estado de espírito dos nossos sonhos. Os sonhos funcionam como uma espécie de matéria literária. O cérebro, quando estamos a dormir, recebe uma mensagem de impotência; quem tem depressão ou está apenas depressivo tem que movimentar-se, estar activo todo o dia, o corpo humano foi feito para o movimento. Quando dormimos os nossos sentidos ficam confundidos, não vemos com os olhos, não cheiramos, não tocamos nas coisas, como não podemos reagir aos sinais do cérebro sonhamos. A literatura tem mais afinidade com os sonhos do que a ciência”, enfatizou durante a sua palestra a autora de “O peso da luz: Einstein no Ceará”.
“A minha anotação dos sonhos é uma libertação da mente, e ao mesmo tempo o sonho é o mistério da mente. Por isso, posso afirmar que tudo o que me aconteceu na vida eu nunca planeei. Vou fazendo e realizando o que me vai aparecendo; o sonho é a relação nocturna com o inconsciente, sobre o qual nenhum de nós tem controle."
Não sou uma escritora, sou uma arqueóloga da palavra
Quem conhece bem a Obra de Ana Miranda sabe que alguns dos seus livros nasceram de sonhos, e ela diz quais foram, e como tudo aconteceu, como é o caso do livro “Desmundo”, que nasceu numa noite em que Ana sonhou com uma índia a coser a roupa do padre António Vieira. Mas este é só um exemplo. Ana Miranda afirma que não é uma escritora, mas uma arqueóloga da palavra, para depois acrescentar que "só escrevemos o que somos", e que "quando começamos a escrever um livro não nos libertamos dele enquanto não acabarmos de o escrever". Por isso afirma que a literatura, nomeadamente para quem é romancista, “é uma amante ciumenta". "O poeta escreve os seus poemas e vai viver a vida. O romancista não, está sempre a trabalhar. Não desliga. Se tem que desligar por alguma razão de forca maior é um quebra-cabeças”.
Estes apontamentos do jornalista de O MIRANTE são apenas de uma sessão da master class em que os sonhos eram o tema principal. Mas a conversa foi muito para além dos sonhos, com José Saramago pelo meio, que Ana também conheceu bem e acha que beneficiou muito a sua vida depois da tentativa de censura em Portugal que o fez ir viver para Lanzarote, da Clarice Lispector: "ela era a própria literatura", de Kafka e Borges, cujas obras admira e levou para a sala, de Nélida Piñon, que no período em que escreveu os seus melhores livros teve "à perna" um crítico pouco sério que escreveu que os livros de a autora de “A Casa da Paixão” “eram retirados do caixote do lixo de Clarice Lispector”. Para provar que neste mundo da literatura ninguém é inocente, recordou também um episódio da sua vida, quando um dos jornais de referência do Brasil deu o espaço de uma página a um crítico que considerava todos os livros de Ana Miranda copiados dos textos dos “Sermões” do Padre António Vieira, e de outros escritores mais ou menos do seu tempo.
Uma escritora sábia e paciente
Numa sessão em que o tempo passou depressa, Ana Miranda foi conversando, conversando, respondendo também a algumas perguntas sobre como um escritor vive o seu dia a dia, quando para escrever é preciso estar sentado e desligado do mundo, incluindo o mundo mais próximo que é o familiar.
A frase que escolhemos para terminar este texto não foi certamente a que fechou a primeira sessão a que assistimos, mas é digna de figurar aqui depois da forma desprendida, sábia, paciente, como contou partes do mistério do seu processo criativo, e respondeu a muitas questões que fugiam do tema e se dirigiam mais à vidinha de cada um de nós, e à forma como sentimos e somos parte: “o ressentimento é um veneno que você toma esperando o outro morrer.
Para quem quiser espreitar o programa da master class clique no link:
https://armazemdacultura.com.br/blogs/news/master-classes-com-a-escritora-ana-miranda-todo-romance-e-historico?srsltid=AfmBOopomNtYg2hFSxyQLdj-1x1EtYnpz-T1kMNW-456sBQTMMALpk4u


