De Vale do Paraíso para o país: a carrinha que é uma fábrica de memórias
Com quase seis décadas de história, a carrinha de 1969 que nasceu como um sonho de família transformou-se num fenómeno que está a conquistar casamentos, escolas e eventos de Norte a Sul do país. O que começou como um projecto pessoal de Ana Quinteiro e Ivo Pereira, naturais de Vale do Paraíso, ganhou dimensão inesperada.
Há quase seis décadas que saiu de fábrica, mas é agora que vive uma segunda juventude. A “Dona Flor”, uma Volkswagen Kombi de 1969, transformou-se no coração do projecto “Flor dos Sonhos” e está a ajudar famílias a criar momentos que ficam para sempre. O que começou como um sonho pessoal depressa ganhou outra dimensão. Ana Quinteiro, 39 anos, e Ivo Pereira, 35, naturais de Vale do Paraíso, no concelho de Azambuja, trabalham na área dos seguros, mas partilhavam há muito o desejo de ter um clássico para viajar em família com as duas filhas. A carrinha chegou e com ela chegaram também os pedidos inesperados. “Percebemos que não fazia sentido ser só para nós. Podíamos ajudar outras famílias a criar momentos especiais”, explica Ivo. Entre fotografias, convites para eventos e solicitações para publicidade, nasceu um negócio assente na nostalgia, no amor e na felicidade.
O nome “Flor dos Sonhos” não é acaso. Junta o sonho antigo do casal à homenagem a Florinda, avó de Ana. “Flor” é memória, é raiz, é família. E há qualquer coisa de magnético nestas carrinhas. “Quando paramos, as pessoas vêm falar connosco. Quase toda a gente tem uma história ligada a uma Kombi: um avô, uma viagem, umas férias antigas”, contam a O MIRANTE. A prova disso surgiu logo num dos primeiros casamentos: noiva portuguesa, noivo brasileiro. À saída da igreja, a comunidade brasileira emocionou-se ao ver a carrinha estacionada. No Brasil, estes modelos marcaram gerações.
Hoje, grande parte dos serviços é feita em casamentos. A “Dona Flor” transporta noivos, mas leva muito mais do que isso. Há decoração personalizada, flores escolhidas ao detalhe, champanhe, fruta e música à medida. “É um momento de descompressão. Entram nervosos e saem a rir”, dizem. Mas nem só de casamentos vive a carrinha. Num Dia da Família, numa escola, tornou-se palco de gargalhadas. “A alegria das crianças ao entrar num veículo tão diferente foi inesquecível”. Com quase 60 anos, há limitações, como não ter ar condicionado e as viagens longas exigirem muito planeamento. Ainda assim, garantem, “a felicidade das pessoas compensa qualquer dificuldade.”
O futuro passa por crescer e por reforçar a vertente solidária. O casal quer associar a “Dona Flor” a causas ligadas a crianças institucionalizadas e idosos, com acções especiais no Natal. A ambição é que a carrinha não seja apenas rentável, mas socialmente transformadora.


