Trombone levou Miguel Gonçalves para o frio de Berlim
Miguel Gonçalves tem 19 anos, nasceu em Vila Franca de Xira e cresceu no meio da música. Vindo de uma casa de músicos, onde o trombone era quase uma tradição de família, começou a estudar música muito cedo e nunca mais parou. Hoje estuda na Universidade de Artes de Berlim, na Alemanha, e quer fazer da música a sua vida.
O trombone é um dos instrumentos mais próximos da voz humana, por estar muito ligado à respiração e à forma como se “canta” através do instrumento, revela Miguel Gonçalves, jovem de Vila Franca de Xira que se tornou no primeiro músico do concelho a tocar com a filarmónica de Berlim. Um feito que, para muitos, não passa de um sonho e que Miguel Gonçalves conseguiu concretizar.
Nasceu em Vila Franca e vem de uma família com muitos músicos. O pai, a mãe, o tio e um primo são músicos e muitos deles trombonistas. Isso teve uma grande influência no seu percurso. Desde pequeno que ouvia o pai tocar e acabou por se identificar com o trombone. Acabou por começar a estudar música aos 6 anos no Ateneu Artístico Vilafranquense, tendo integrado a banda do Ateneu, onde apesar do seu percurso ainda hoje se encontra e tenta sempre ajudar e ensaiar quando vem a VFX.
“Em Portugal temos uma tradição musical e uma escola muito boa. A cultura das bandas filarmónicas é algo genial em Portugal, que lança muitos músicos que acabam por se tornar nos melhores do mundo. É pena é que muitos jovens e as suas famílias não aproveitem estas filarmónicas. Os miúdos preferem ficar alienados no mundo digital”, defende a O MIRANTE. O problema, confessa, é depois a falta de trabalho no meio em Portugal.
Entrou para o Conservatório Regional Silva Marques, em Alhandra, e evoluiu como músico. Mais tarde entrou na Escola Profissional da Metropolitana em Lisboa e foi aí que terminou o secundário. No último ano da escola decidiu candidatar-se à Universidade de Artes de Berlim, uma universidade muito conceituada e muito concorrida. Era um sonho e decidiu tentar. Fez algumas aulas de preparação antes da prova, candidatou-se, fez os exames de admissão e conseguiu entrar. Actualmente está no segundo ano da licenciatura em instrumentista de orquestra, na área de trombone, onde estuda com o professor Stefan Schultz.
Berlim, diz, é um destino com muitas orquestras, muita cultura e uma das melhores universidades de música da Europa. No entanto, mudar-se para Berlim não foi fácil. “Adoro o sol e Berlim é uma cidade muito escura e cinzenta. De Inverno escurece muito cedo e isso afecta a nossa energia e rotina”, confessa. No início esteve três meses sem voltar a Portugal e foi uma fase difícil. Mesmo assim, considera que foi um passo muito importante para o seu crescimento e evolução.
O primeiro na Filarmónica de Berlim
Para estudar na universidade teve também de aprender alemão. Exigência da universidade. Ao contrário de outros países onde é possível estudar em inglês, ali é obrigatório aprender alemão. Apesar de viver na Alemanha, mantém uma ligação muito forte a Vila Franca de Xira. Sempre que vem a Portugal tenta passar pelo Ateneu e pela banda. Diz que tem sempre saudades da cidade e que o que mais gosta é do rio Tejo, da natureza, da cultura, das origens da cidade, da comida, do sol e da energia das pessoas. “Aqui temos boa comida, sol e pessoas acolhedoras. As pessoas são mais abertas e falam mais facilmente umas com as outras, enquanto na Alemanha são mais fechadas socialmente, embora muito respeitadoras”, conta.
Um dos momentos mais marcantes da sua vida aconteceu quando foi chamado à última hora para tocar com a Orquestra Filarmónica de Berlim. Tinha voltado para Berlim na noite anterior ao primeiro ensaio. Acordou cedo nesse dia para estudar e enquanto se preparava recebeu uma mensagem do professor a perguntar se podia ir tocar com a orquestra, porque precisavam de um trombone à última hora. Saiu imediatamente e acabou por participar em três ensaios e três concertos, todos com sala cheia.
Tocou, entre outros, a abertura Tannhäuser de Richard Wagner e uma peça contemporânea chamada Barcarola. “Foi uma semana incrível, com muitos nervos no início, mas também com muito foco e concentração. A música não é apenas tocar certo e perfeito, mas sim transmitir emoções e tocar as pessoas. É dar vida ao que está escrito na partitura, porque a partitura não são apenas notas, são cores, paisagens, emoções e ideias que o músico tem de transformar em som”, refere.
Actualmente faz parte de um quarteto de trombones na universidade, com dois portugueses, um coreano e uma trombonista espanhola. Concorreram a uma bolsa chamada Live Music Now em Berlim e ganharam. O prémio é fazer concertos em lares de idosos e instituições sociais. Lamenta que haja menos jovens a querer aprender música e considera isso triste porque a música ajuda no desenvolvimento das crianças, na concentração, na disciplina, na relação com outras pessoas e até no desenvolvimento intelectual. Acredita que a música deveria ter a mesma importância que o desporto na vida das crianças.


