Cultura | 05-04-2026 21:00

Grupo de teatro ‘Um Poema na Vila’ afirma-se em Coruche no trabalho de intervenção

Grupo de teatro ‘Um Poema na Vila’ afirma-se em Coruche no trabalho de intervenção
Alguns dos elementos do colectivo no auditório do Pavilhão Gimnodesportivo de Coruche - foto O MIRANTE

Projecto criado a partir da poesia evoluiu para o teatro e afirma-se como espaço de encontro, intervenção e crescimento pessoal em Coruche.

Nasceu da poesia mas encontrou no teatro uma forma exigente, colectiva e transformadora de se afirmar. O grupo “Um Poema na Vila”, criado em Fevereiro de 2012 em Coruche, começou por reunir pessoas em torno da leitura e partilha de textos, num ambiente aberto à comunidade e assente em sessões mensais. Durante vários anos, a palavra dita foi o centro da actividade. Um espaço de escuta, de expressão e de convívio, onde a literatura servia de ponto de encontro. Até que, em 2016, o grupo deu um passo decisivo. A colaboração com Francisco Pina Queiroz, convidado para trabalhar com o grupo, abriu caminho à experimentação teatral. Ainda nesse ano, em Março, estrearam a primeira peça, assinalando o Dia Mundial do Teatro, numa transição que viria a marcar o percurso do colectivo.
A abordagem ao teatro não seguiu modelos convencionais. Em vez de partir de textos fixos, o trabalho cénico foi sendo construído a partir das características de cada elemento. “Fiz a dramaturgia ao contrário do casting”, explica Francisco Pina Queiroz, sublinhando um método que privilegia a pessoa antes da personagem, a emoção antes da técnica. Cada actor é trabalhado individualmente, explorando expectativas, capacidades e formas de transmitir emoções ao público.
Essa construção colectiva reflecte-se também na diversidade dos elencos, que variam consoante as peças, de pequenos grupos de dois ou cinco elementos a produções com quase duas dezenas de participantes, exigindo uma logística exigente e uma forte capacidade de organização. O grupo conta com o apoio do município de Coruche, nomeadamente através da cedência de espaços e de apoio logístico sempre que necessário.
Ao longo dos anos, o grupo foi desenvolvendo várias criações, algumas inspiradas em diferentes realidades, outras com uma dimensão mais universal. Há peças que abordam o tempo, a memória ou a condição humana; outras que se debruçam sobre temas como a guerra ou a demência, procurando sempre provocar reflexão em quem assiste. No percurso surgem produções como “Do Tempo e das Coisas”, a leitura encenada de textos de Joaquim Pessoa, “Fragmento - A Demência na Velhice” ou “Mulheres de Coragem”, uma homenagem às “Mulheres do Couço”.
Mais do que entreter, o objectivo passa por “fazer as pessoas pensar”. Num tempo marcado pela rapidez e pelo consumo imediato, Francisco Pina Queiroz defende o teatro como uma das artes capazes de obrigar à pausa e à reflexão, criando um espaço onde actores e público partilham expectativas e emoções. Essa visão traduz-se também na escolha de repertório, com uma aposta assumida em autores portugueses e na intenção de contribuir, ainda que de forma modesta, para um mundo melhor. A ideia é clara: cada peça deve deixar uma marca, uma inquietação, uma pergunta.

“É urgente fazer teatro para sacudir as pessoas”
O percurso do grupo inclui apresentações em diferentes locais e momentos de reconhecimento que reforçam a confiança no trabalho desenvolvido. Em Coruche, chegaram a ser comparados a grupos profissionais, após uma actuação que mereceu elogios públicos de responsáveis autárquicos, sublinhando a qualidade da interpretação alcançada. Apesar disso, o grupo aponta dificuldades no acesso a apoios e nas exigências logísticas associadas a cada produção. Transportar um elenco numeroso, por exemplo, implica custos e organização que nem sempre são fáceis de suportar. Ainda assim, a motivação mantém-se intacta, sustentada pelo gosto e pela dedicação de quem participa.
Essa dedicação é visível também no impacto que o projecto tem nos seus elementos. Para alguns, o teatro representa uma oportunidade de integração, de aprendizagem e de descoberta pessoal. “Nunca estive em palco como agora”, partilha um dos participantes, que encontrou no grupo um espaço de convívio e de realização. Outro elemento destaca o ambiente humano e o espírito de entreajuda, descrevendo o grupo como um conjunto de “pessoas fantásticas” que tornam a experiência enriquecedora.
No futuro, o grupo mantém a ambição de continuar a criar e a apresentar novas peças, explorando diferentes formatos e temáticas. Entre os projectos estão textos que abordam a Guerra do Ultramar ou a evolução da vida humana em diferentes fases, bem como criações inspiradas em figuras da literatura portuguesa, pensadas para espaços cénicos não convencionais. “É urgente fazer teatro para sacudir as pessoas”, defende Francisco Pina Queiroz, convicto de que o palco continua a ser um espaço privilegiado de questionamento e de construção colectiva.

Quando o palco abre caminhos

Filipe Cristóvão, utente do Centro de Reabilitação e Integração de Coruche (CRIC), destaca o impacto do teatro na sua vida. “Para mim é muito bom porque estou mais ocupado, estou com mais pessoas e inspira-me muito. Nunca estive em palco como agora e gostei muito desta experiência”, afirma. O participante sublinha também o convívio e as oportunidades que o grupo lhe tem proporcionado, incluindo actuações em diferentes locais.
Também utente do CRIC, Fábio Silvestre chegou ao grupo por sugestão de um colega e encontrou no teatro um espaço de realização pessoal. “É uma honra estar neste grupo, são pessoas fantásticas”, refere, acrescentando que a experiência lhe permitiu desenvolver novas competências e participar activamente nas produções. O jovem destaca ainda o ambiente de entreajuda que se vive entre os elementos.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal