Cultura | 15-04-2026 07:00

Jovens de Olalhas querem devolver vida à associação da aldeia após anos de abandono

Jovens de Olalhas querem devolver vida à associação da aldeia após anos de abandono
André Graça, Rui Silva e Rute Martins querem dinamizar a ACAS  - foto O MIRANTE

Nova direcção da ACAS encontrou portas fechadas, problemas burocráticos e uma sede danificada pelo mau tempo, mas está apostada em recuperar um espaço que durante décadas foi o coração da comunidade.

Um grupo de jovens ligados a Olalhas, Tomar, está a tentar devolver vida à ACAS – Associação Cultural e Recreativa de Olalhas, depois de vários anos de inactividade e de um período particularmente difícil marcado pelos estragos provocados pelas recentes tempestades. A nova direcção quer recuperar um espaço que já foi ponto de encontro da aldeia e devolvê-lo à população, apesar das dificuldades financeiras e estruturais que encontrou pelo caminho. A história da ACAS começa antes da própria formalização da associação. No mesmo espaço funcionou, após o 25 de Abril, a Cooperativa Olhanense, criada numa época em que a população se organizava para garantir o acesso a bens essenciais. “O povo de Olalhas criou o seu próprio ‘supermercado’, onde se comprava arroz, massa ou petróleo a preços justos, mas onde também havia partilha de recursos e entreajuda”, recorda Rute Martins, de 51 anos, presidente da assembleia-geral. Mais tarde, a associação herdou parte dessa dinâmica comunitária, chegando mesmo a integrar mercearia e talho.
Com o passar dos anos, a desertificação humana e a alteração dos hábitos de consumo foram retirando força à colectividade. A saída de muitos habitantes para os centros urbanos e o aparecimento das grandes superfícies comerciais contribuíram para a quebra de actividade. “As pessoas foram saindo, passaram a viver em Lisboa e a vir só ao fim-de-semana, e isso fez com que a associação perdesse força”, explica Rui Silva, presidente da direcção. Quando a actual equipa tomou posse, no ano passado, encontrou uma associação sem actividade regular, sem conta bancária activa e com várias questões burocráticas por resolver. “Isto esteve completamente fechado cerca de dois anos, mas há pelo menos uma década que não tinha quase actividades”, refere o vice-presidente, André Graça, de 36 anos. A prioridade inicial passou por reorganizar a estrutura interna e tratar de processos pendentes, numa tentativa de voltar a transformar a colectividade no centro da aldeia.
A situação agravou-se com as tempestades recentes, que causaram danos significativos na sede, sobretudo ao nível do telhado. “Houve zonas que ficaram completamente expostas. Tivemos de intervir de forma urgente e foi tudo suportado por nós”, lamenta Rui Silva, sublinhando que muitos elementos da direcção enfrentavam, em simultâneo, problemas semelhantes nas suas próprias habitações. Para ajudar a suportar os custos das obras e recuperar a estabilidade financeira, a direcção organizou um baile de Páscoa. As receitas destinam-se a cobrir as despesas já assumidas e a responder ao muito que ainda falta fazer.

Atrair mais juventude
A nova fase da associação passa também por aproximar as gerações mais novas, recorrendo às redes sociais para divulgar iniciativas e recuperar a ligação de quem se foi afastando. “Temos conseguido chegar a pessoas mais novas que não vinham cá e que agora mostram interesse. Até as minhas sobrinhas, que nunca frequentaram o espaço, já me perguntaram pelo baile”, conta Rute Martins. Apesar de a gestão assentar no voluntariado e na disponibilidade de dirigentes que vivem e trabalham maioritariamente fora da freguesia, a motivação mantém-se por causa da forte ligação emocional ao espaço. Para muitos deles, a ACAS fez parte da infância e adolescência, numa altura em que a vida da aldeia passava inevitavelmente por aquele edifício. “Comecei a vir para aqui com 12 ou 13 anos. Vivíamos em Lisboa, mas vínhamos todos os fins-de-semana e isto era sempre um ponto de encontro”, recorda Rui Silva.
Também André Graça guarda memórias de uma associação cheia de vida, onde ao domingo “encontrava-se aqui toda a gente”. “Antes das festas vinha-se preparar tudo, enrolar rifas, fazer decorações. As pessoas passavam aqui o dia inteiro e, como os meus pais faziam parte da associação, eu passei aqui a minha infância”, conta.
Rute Martins reforça essa dimensão geracional, lembrando que o pai foi um dos fundadores da cooperativa e que ficou “radiante” ao saber que ela estava envolvida no processo de recuperação da associação. “O ambiente antes era de muita entreajuda e comunidade. Toda a gente se conhecia e convivia aqui. Essa ligação perdeu-se um pouco, mas ao reactivar a associação e ao promover eventos estamos a criar novamente essas relações, sobretudo entre os mais novos, o que é importante para a própria continuidade da associação”, sublinha.

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