Artesanato resiste na Feira de Abril, mas perde espaço no Entroncamento
Falta de apoios, calor, vento e menos condições afastam artesãos de uma feira onde a tradição continua viva graças à persistência de quem se recusa a desistir.
Apesar da animação e do movimento habitual, a Feira de Abril do Entroncamento, a decorrer até 26 de Abril, continua a revelar uma fragilidade que preocupa quem ainda insiste em manter viva a tradição do artesanato. Este ano, marcaram presença apenas cerca de uma dúzia de artesãs da Associação de Artesãos do Entroncamento – Mãos Unidas pela Arte, confirmando uma quebra de participação que, segundo as próprias, se tem agravado ao longo dos anos.
A presidente da associação, Cesarina Conceição, lamenta a fraca adesão e aponta razões concretas para esse afastamento: falta de condições, dificuldades financeiras e ausência de apoio logístico. “Nem todas têm capacidade monetária para trazer o seu próprio equipamento, como os stands”, explica, sublinhando que tentou encontrar soluções junto de outras entidades, sem sucesso. Também a resposta da câmara municipal ficou aquém do esperado. “Tentei falar com a câmara para ver se eles nos podiam ajudar com os stands, mas a resposta foi negativa. Acho que era uma boa aposta da câmara”, defende. Com cerca de dez anos de presença consecutiva na feira, Cesarina Conceição diz que o espaço se tem tornado cada vez menos atractivo para os artesãos. “Isto é muito ventoso e faz muito calor, e isso afasta as pessoas. Além disso, o artesanato já não rende como antes”, afirma, lembrando que houve anos em que foi a única artesã presente.
Purificação Veiga, de 79 anos, fala da feira com saudade de outros tempos. “Esta feira já foi boa mesmo, havia cá mais artesãos, cada um com o seu espaço”, recorda. O gosto pelo artesanato nasceu na infância, ao lado da avó, com quem aprendeu a reaproveitar tecidos e a transformá-los em peças úteis e cheias de memória. Hoje continua a produzir colchas, tapetes, aventais e outros artigos, mantendo viva uma herança que já começou também a passar à neta. Já Judite Reis, de 68 anos, participa este ano pela primeira vez como vendedora. Natural das Moitas Venda, em Alcanena, encontrou no artesanato uma ocupação séria depois da reforma, embora a ligação a esta arte venha de muito cedo, graças aos ensinamentos da mãe, da avó e de uma freira do colégio onde estudou. Actualmente faz croché, bordados à máquina e peças decorativas, actividade que desenvolve sobretudo online, através da marca “Giudita”. “Gosto de fazer tudo, é a minha terapia”, resume.
Apesar de percursos diferentes, as três artesãs concordam num ponto: sem mais apoio e melhores condições, será difícil inverter o declínio. “É pena não haver mais artesãos aqui, porque nas feiras é sempre interessante ver outras coisas também”, lamenta Judite Reis.


