Sem mestres nem escola, Justa Janeiro fez da costura o seu caminho
Num ofício aprendido sem mestres, a costureira de Samora Correia construiu um percurso marcado pela persistência, criatividade e ligação às tradições locais.
Justa Janeiro, nome de baptismo e pelo qual é conhecida em Samora Correia, nasceu em 1972 e construiu ao longo da vida um percurso singular na costura, área que abraçou sem formação formal e que hoje a coloca entre as principais responsáveis pelos trajes do Carnaval e por figurinos do grupo de teatro Revisteiros.
Filha de emigrantes, viveu em França entre os 11 e os 15 anos, em Fontainebleau e Paris, período que, apesar de breve, lhe abriu horizontes e marcou a sua forma de estar. Regressou a Portugal ainda jovem, fixando-se em Samora Correia, sua terra natal, onde rapidamente entrou no mercado de trabalho. Aos 16 anos começou a trabalhar no Grémio da Lavoura, em Vila Franca de Xira, na área da contabilidade, conciliando o emprego com os estudos, que concluiu até ao 9.º ano num curso industrial e comercial.
A infância, passada na antiga Rua dos Benaventes, é recordada como feliz, marcada por brincadeiras ao ar livre, participação em actividades organizadas pelas Irmãs da igreja e uma vida comunitária intensa. “Fui toda a vida feliz”, afirma, sublinhando um percurso feito de trabalho, mas também de autonomia e liberdade. Foi ainda jovem adulta que a costura começou a ganhar espaço. Primeiro como passatempo, pois fazia roupas para bonecas e pequenas peças, e depois como actividade complementar. “Nunca aprendi com ninguém. Aprendi comigo”, diz, explicando que começou a costurar quando ficou grávida e ficava em casa com os filhos. Foi escriturária até aos 20 anos, podia ter sido professora de Francês, mas a vocação para a costura definiu-lhe a vida.
A ligação ao ofício não era, contudo, totalmente estranha: a mãe, as tias e outras mulheres da família já executavam trabalhos manuais, numa tradição doméstica que acabou por influenciar o seu percurso. Ainda assim, desenvolveu um método próprio, baseado na intuição e na prática, recusando modelos pré-definidos e preferindo trabalhar a partir de medidas e da observação directa.
A profissionalização deu-se com a integração numa casa de cortinados em Samora Correia, onde ganhou experiência e clientela. Paralelamente, começou a trabalhar por conta própria, numa altura em que o sector tinha forte procura. Com o tempo, o mercado foi mudando, reduzindo-se a dimensão dos trabalhos, mas a costureira adaptou-se, diversificando a actividade. Hoje desenvolve a sua actividade numa garagem perto do Centro Cultural de Samora Correia, num cenário em que não faltam carrinhos de linhas, máquinas de costura, um rádio que a acompanha na lide e uma fita métrica que já se incorpora à volta do pescoço como se de uma jóia decorativa se tratasse.
O Carnaval como ponto de viragem
O Carnaval, e a sua responsabilidade de confeccionar dezenas e dezenas de peças, surgiu como um ponto de viragem. Desafiada por um grupo local, os Saltitões, aceitou fazer os primeiros fatos, entrando num universo exigente, onde rapidamente se destacou pela capacidade de resposta e criatividade. “De vez em quando é quase todo o ano”, resume, descrevendo uma actividade que deixou de ser sazonal para se tornar contínua.
Com grupos numerosos, alguns com cerca de 70 a 80 elementos, a produção dos fatos implica longas jornadas de trabalho e uma gestão constante de imprevistos. Prazos apertados e alterações de última hora fazem parte da rotina. “Vêm hoje e querem para a véspera”, relata, evidenciando a pressão que acompanha cada projecto.
Nas semanas que antecedem os desfiles ou espectáculos de teatro, o ritmo intensifica-se. Justa Janeiro descreve noites mal dormidas, com pausas curtas para descanso, e episódios em que chegou a adormecer sobre a máquina de costura, fruto do cansaço acumulado. Ainda assim, garante que o trabalho aparece feito, mesmo quando as condições são adversas.
Mais do que executar, assume um papel determinante na concepção dos figurinos. Cabe-lhe, muitas vezes, adaptar ideias, encontrar soluções técnicas e transformar materiais em peças com volume e expressão. A ausência de medo ao cortar tecido e a capacidade de improviso são características que destaca no seu método de trabalho.
Essa dimensão criativa é sublinhada por Joaquim Salvador, actor, encenador e dinamizador cultural do concelho de Benavente, ligado aos Revisteiros, grupo fundado em 1986, em Samora Correia, que considera que o trabalho da costureira vai muito além da execução. “Não é só executar porque o tecido nem sempre é o ideal. É a costureira que tem que pensar”, afirma, acrescentando que é Justa Janeiro quem encontra soluções quando os tecidos ou materiais não correspondem às ideias iniciais.
A própria costureira reconhece que a experiência acumulada é determinante. “São muitos anos a virar frangos”, diz, numa expressão que sintetiza o conhecimento adquirido ao longo do tempo e a capacidade de resolver problemas práticos. Apesar do reconhecimento, mantém uma postura discreta, sem recorrer a publicidade nas redes sociais. O trabalho chega-lhe por recomendação directa, numa rede de clientes que continua a crescer, ao ponto de ter de adiar ou recusar encomendas por falta de disponibilidade, incluindo de zonas abastadas, como Santo Estêvão, onde as famílias têm o seu recanto, e segundas habitações, longe da capital, Lisboa.
Justa Janeiro continua a trabalhar, embora admita que poderá abrandar nos próximos anos, não por limitações físicas, mas pelo desgaste mental provocado pela exigência constante. “Não vou coser mais, às vezes canso-me pelas constantes interpelações das pessoas para que termine as peças que me deixaram. Mais um ou dois anos e vou viver a vida. Preciso de descansar”, resume.
Uma mulher autónoma e à frente do seu tempo
Justa Janeiro foi recentemente uma das nove mulheres homenageadas nas janelas do Palácio do Infantado, em Samora Correia, distinção que valoriza pelo impacto junto da família. “Para os meus filhos e netos é uma recordação e um orgulho”, afirma, admitindo o simbolismo do reconhecimento público. Ao longo da vida, assumiu sempre uma postura independente, tanto no plano profissional como pessoal. Comprou terreno, construiu casa ao longo de vários anos e criou os filhos apostando na sua formação académica, num percurso que considera motivo de orgulho.
Nesse contexto de afirmação pessoal, Justa Janeiro recorda também a forma como cedo procurou autonomia numa época em que tal não era comum entre mulheres. O pai chegou a emancipá-la para que pudesse tirar a carta de condução aos 18 anos, num período em que essa decisão era ainda pouco habitual. Antes mesmo de realizar o exame, já tinha um carro à porta, adquirido com ajuda inicial do pai, que lhe deu “20 contos”, sendo o restante pago por si.
A atitude destacava-se numa Samora Correia ainda marcada por costumes tradicionais e conservadores, onde o papel da mulher era mais limitado. Justa Janeiro lembra que, sendo filha de emigrantes e com hábitos trazidos de França, como o uso de calças, mini-saias ou simplesmente por ser ela própria a conduzir o seu automóvel, acabou por ser alvo de comentários. Ainda assim, nunca se deixou condicionar. “Não mudei por causa das pessoas falarem”, afirma, sublinhando uma postura independente que viria a marcar todo o seu percurso pessoal e profissional.


