A Bandinha nasceu há 20 anos para dar ritmo à festa em Aveiras de Cima
Foi criada com o propósito de animar a Ávinho e tornou-se num pilar de identidade e cultura. A Bandinha é um projecto da Filarmónica de Aveiras de Cima, colectividade com mais de século e meio de existência que continua a ser um espaço de aprendizagem, formação artística, convivência e partilha.
Na sede da Filarmónica Recreativa de Aveiras de Cima os músicos reúnem-se meia hora antes do serviço começar, num ambiente animado e informal. Tiram os instrumentos das caixas, fixam as pautas previamente distribuídas e penduram ao pescoço a fita que segura a caneca de barro que lhes irá render muitos brindes na Ávinho. Esta festa do vinho e das adegas, que outrora reverteu a favor da filarmónica, inspirou, há 20 anos, um conjunto de músicos da banda a formar a Bandinha. Um grupo musical com “repertório mais ligeiro e animado”, pensado para dar ambiente à festa e “cativar mais pessoas para a filarmónica”. A explicação é dada por Luís Mirradinho, de 39 anos, um dos fundadores do projecto que começou, aos seis anos, a tocar clarinete e a aprender a ler pautas ao mesmo tempo que aprendia a juntar as letras do alfabeto.
Levado para a filarmónica pela mão do avô, numa altura da vida em que durante o ensaio se sentava na cadeira sem que os seus pés conseguissem alcançar o chão, actualmente é considerado pelos seus pares como um dos grandes músicos da filarmónica, onde assume o cargo de director de banda. “Não há Ávinho sem Bandinha, as pessoas já não passam sem nos ouvir na inauguração. Pode-se dizer que é uma tradição e também uma forma de contribuirmos para esta festa que também é um pouco nossa”, diz enquanto avança com o grupo em direcção ao Largo da República, o epicentro de Aveiras de Cima onde se dá a partida para a rota pelas adegas e bancas de artesanato.
Os 25 músicos que integram a Bandinha fazem igualmente parte da banda principal da filarmónica que não só é a colectividade mais antiga do concelho de Azambuja, com 153 anos feitos em Setembro, como é “uma das mais antigas do país”, diz com orgulho o presidente da direcção, Vasco Matias. Está no cargo há menos de dois meses, mas a sua ligação à colectividade começou quando tinha 13 anos e fazia uso do trompete, “a grande paixão” da sua vida. Deixou de tocar aos 26 anos depois de ter sofrido três derrames cerebrais devido a um acidente. E se lhe perguntassem no final do ano passado se imaginava regressar um dia a essa “casa de valores”, diria um não redondo.
Não lhe quer chamar “chamamento”, para não soar a exagero, mas diz que sentiu a responsabilidade de responder a um apelo da direcção anterior. “Senti-me no dever de tentar retribuir a esta casa um pouco do que ela me deu”, confessa. Foi nela, explica, que aprendeu valores que preserva e valoriza na sua vida, como o humanismo. “Não esqueço que, fizesse chuva ou sol, as pessoas desta colectividade iam buscar-me e levar a casa, em Aveiras de Baixo, depois de cada ensaio. O que sou hoje muito devo a esta casa”.
Onde se une música e amizade
O gosto pela música ou um laço familiar empurram novos elementos para a banda e a Bandinha, mas são os laços de amizade, união e partilha que fazem a maioria ficar. José Júlio, 66 anos, é um dos músicos mais antigos da banda, que integra há 50 anos, e da Bandinha. Tem a peculiar característica de tocar trompete com uma só mão. Amputado há 47 anos, devido a um acidente, não se deixou abater pelo que lhe aconteceu nem permitiu que o infortúnio o impedisse de continuar a fazer o que tanto gosta: tocar música, seja de estilo mais solene e erudito, na banda, ou mais ligeira e animada, na Bandinha. “Às vezes falho umas notas, mas a malta não dá por isso. O importante é que continua cá o bichinho. E com a Bandinha é só alegria, a tocar e a ver a malta a dançar”, diz.
Apesar do repertório da Bandinha ser mais simples e de muitos o tirarem de ouvido, ou seja, sem necessidade de olhar para a pauta, há necessidade de ser ensaiado. O responsável é o maestro da banda, Samuel Sequeira que toca percussão na Bandinha e clarinete. Aos músicos não pede a seriedade e o rigor exigido numa procissão ou num concerto da banda, mas há algo que não pode faltar: “Alegria, é o que se pede que os músicos transmitam. Num desfile destes temos de passar essa mensagem quando tocamos o ‘Vou alugar um quarto’ ou o pasodoble ‘Gato Montés’”.
Seja na banda ou na Bandinha, muitas vezes quando o ensaio termina, depois de um dia de trabalho ou de escola, continuam a ser tocadas músicas entre amigos com petiscos e boas conversas à mistura. “Há quem leve bolo, às vezes assa-se um chouriço e chegamos a estar juntos até de manhã”, descreve Vânia Freitas, trompetista de 39 anos, para quem o convívio entre músicos, elementos da direcção e maestro é “muito importante” para que se criem verdadeiros laços de amizade que depois transparecem em palco ou numa arruada. Em ambos os grupos, acompanha-a o companheiro, Francisco Leitão e o filho de ambos, de três anos, que apesar de ainda não saber tocar um instrumento, faz-se acompanhar de uma pandeireta e demonstra interesse pela música.


