Filarmónica de Paialvo continua a ser a alma da aldeia e é liderada por duas irmãs
Com 130 anos de história, a Sociedade Filarmónica Payalvense “Manoel de Mattos” continua a ser muito mais do que uma banda: é um símbolo de identidade, memória e resistência de Paialvo. Entre dificuldades financeiras, falta de jovens e edifícios degradados, a colectividade luta para manter viva uma tradição que ainda faz bater o coração da localidade.
A Sociedade Filarmónica Payalvense “Manoel de Mattos” é uma das bandas filarmónicas mais antigas do país e uma referência incontornável no concelho de Tomar. Com 130 anos celebrados recentemente, continua a ser o grande ponto de encontro de Paialvo e a instituição que melhor representa a alma da terra. À frente dos destinos da colectividade estão agora duas irmãs: Maria João Elias, 59 anos, cabeleireira e presidente da direcção, e Ana Maria Elias, 55 anos, oficial de justiça e secretária.
A história da filarmónica começou a 3 de Março de 1896, na sequência de uma desavença entre elementos de uma banda da povoação de Carrascos, hoje Vila do Paço, no concelho de Torres Novas. Alguns desses músicos eram naturais de Paialvo e, após o conflito, decidiram criar a sua própria banda. A estreia aconteceu logo nesse ano, no Domingo Gordo de Carnaval, data que ficou inscrita na memória da localidade. Ao longo das décadas, a colectividade foi crescendo e alargando a sua intervenção. Em 1936, um benfeitor de Paialvo restaurou uma antiga propriedade e cedeu-a à associação para instalação da sede. A partir daí nasceram novas actividades, como um grupo de teatro, um rancho folclórico e uma biblioteca, transformando o espaço no principal centro de convívio da população. Mais tarde, em 1972, graças ao apoio do comendador Manoel de Mattos, foi construída a actual sede. Em sinal de reconhecimento, a associação passou a adoptar o nome que mantém até hoje.
Apesar das muitas dificuldades, a banda nunca deixou de tocar. Numa localidade com cerca de 120 habitantes, envelhecida e com pouca renovação populacional, a captação de jovens é hoje um dos maiores desafios. Actualmente, a banda conta com cerca de 25 músicos e a escola de música tem 12 alunos, alguns já integrados na filarmónica. Ana Maria Elias recorda que entrou para a banda aos 11 anos e integrou o primeiro grupo de mulheres a fazer parte da formação. Nessa altura, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, as solicitações para actuações eram frequentes. Hoje a realidade é diferente. Maria João Elias aponta os custos elevados da contratação das bandas e a forte concorrência de outras formações do concelho e da região como algumas das razões para a quebra da actividade.
A Sociedade Filarmónica Payalvense foi durante muitos anos a principal forma de entretenimento e convívio em Paialvo. Da sua escola de música saíram músicos que integraram orquestras, bandas filarmónicas e até formações oficiais das Forças Armadas. Mas o aparecimento de novas ofertas culturais e recreativas afastou os mais novos e reduziu a participação da comunidade. Essa quebra acabou por ditar o desaparecimento de algumas tradições, como o teatro e o rancho. Ainda assim, resistem momentos simbólicos que continuam a dar identidade à colectividade. No Carnaval, data ligada à própria fundação da banda, mantém-se a tradição; no dia 1 de Dezembro os músicos saem à rua para tocar o Hino da Restauração; e no primeiro dia do ano levam as boas-festas à população.
A nova direcção quer agora devolver centralidade à colectividade e reforçar os laços com a comunidade. Maria João Elias diz que a prioridade passa por unir a população, promover novas iniciativas, divulgar mais a banda e angariar fundos e sócios, mesmo através de quotas simbólicas, para garantir a sustentabilidade da instituição. A situação financeira, contudo, é frágil. A sede não está a ser explorada comercialmente e o bar funciona apenas ao domingo, o que limita fortemente as receitas. Ana Maria Elias explica que o edifício não reúne as condições necessárias para uma utilização mais intensiva e que, para já, não há capacidade financeira para fazer esse investimento. O telhado da sede precisa de uma requalificação profunda devido às infiltrações, e o espaço de festas e convívio encontra-se muito degradado. A direcção já pediu apoio à autarquia e aguarda resposta, mantendo também em perspectiva outras melhorias, como a criação de uma cozinha e a renovação dos balneários.


