Há jovens a ler Dostoievski e “calhamaços” com centenas de páginas em VFX
A leitura continua a conquistar jovens em Vila Franca de Xira, que não se afastam de livros exigentes nem de obras com centenas de páginas. Entre clássicos da literatura e histórias contemporâneas, há uma geração que resiste ao domínio dos ecrãs. O gosto pelos livros marcou a final do Concurso Municipal de Leitura do concelho.
Aos 14 anos, Lourenço Fonseca já lê Fiódor Dostoievski e não se intimida com livros densos e exigentes, uma raridade entre jovens da sua idade. A seu lado, Sofia Gargas, de apenas 11 anos, mergulha sem receios em obras com centenas de páginas, mostrando que o gosto pela leitura continua vivo entre os mais novos.
Aluno da Escola Professor Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, Lourenço frequenta o 9.º ano e garante que a leitura faz parte da sua vida desde que aprendeu a ler. Recorda-se de, aos sete anos, já se aventurar por livros mais avançados, muitas vezes incentivado pelos pais, que lhe deram a conhecer novos autores e alimentaram esse hábito. Hoje, divide-se entre o livro físico e os e-books, que reconhece serem mais práticos. A descoberta de Dostoievski fascinou-o e, por isso, participou na final da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira com a obra “Crime e Castigo”. Também Sofia Gargas, aluna da Escola Soeiro Pereira Gomes, em Alhandra, revela uma relação próxima com a leitura. Com 11 anos e a frequentar o 5.º ano, começou a dedicar-se aos livros a partir do 2.º ano de escolaridade, muito por influência da família e do centro de estudos que frequenta. Para a final do concurso de leitura, elegeu “A Koisa”, uma história que descreve como envolvente e desafiante. “Quantas mais páginas, mais enterrada fico no livro”, conta, referindo que prefere muitas vezes ficar a ler a estar agarrada ao telemóvel.
Bibliotecas continuam a ser frequentadas por jovens
Chegaram à final da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira 46 alunos do ensino público e privado, dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário do concelho. A iniciativa é organizada pelo Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares (SABE) da Divisão de Bibliotecas e Arquivo, com o objectivo de estimular o gosto pela leitura e promover a melhoria da compreensão, a leitura em voz alta e o domínio da língua portuguesa. A final decorreu no dia 17 de Abril, na Biblioteca da Póvoa de Santa Iria, e contou com a leitura de vários excertos de livros escolhidos pelos jovens participantes, professores e alguns pais.
“Não podemos ignorar o digital, a tecnologia, mas acho que as bibliotecas também têm de se adaptar a isso e criar serviços e projectos que possam trazer mais do que o simples facto de vir à biblioteca, que já é muitíssimo bom. Quando dizemos que os miúdos não lêem nada e que só querem saber do computador, vemos aqui um nível de maturidade e de interesse dos jovens neste concurso”, afirmou a O MIRANTE Conceição Matos, coordenadora do Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares, bibliotecária e júri no concurso de leitura.
Mais do que ler, compreender as obras
Helena Brígida, professora e coordenadora interconcelhia da Rede de Bibliotecas Escolares, acompanha o trabalho dos professores bibliotecários em várias escolas e ajuda a desenvolver dinâmicas de promoção da leitura. A docente, elemento do júri, garante que os alunos ainda se deslocam às bibliotecas da escola para fazer pesquisas, apesar da oferta da Internet. “Eles precisam de continuar a saber pesquisar numa enciclopédia, consultar um dicionário, senão perdem esses hábitos”, afirma, sublinhando também a existência de projectos como o “Dez minutos a ler”, que consiste em reservar dez minutos de uma aula, seja ela qual for, para os alunos lerem um livro à sua escolha, ou o “Livro à Mão”, em que o aluno que termina uma tarefa mais cedo pode pegar num livro e ler enquanto os colegas terminam os seus trabalhos.
Artur Santos, mentor do projecto “Poesia no Palácio”, que decorre há 12 anos no Palácio da Quinta Municipal da Piedade, e jurado do concurso de leitura, admite que este ano já contava com a qualidade e os temas que os alunos trouxeram a palco através da leitura dos seus textos. “Clarividentes, inteligentes e dedicados” foram alguns dos adjectivos que usou para elogiar os alunos, refutando a ideia generalizada de que a juventude de hoje “está perdida”. “Aquilo que eu valorizo mais é não só a dicção e ser claro quando se lê, mas a emoção com que se lê. O compreender aquilo que estão a ler. E estes alunos demonstram que compreendem o que estão a ler”, explicou.
A lista dos vencedores da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira será ainda publicada na página oficial na Internet da rede de bibliotecas do concelho.


