Cultura | 04-05-2026 15:00

Há jovens a ler Dostoievski e “calhamaços” com centenas de páginas em VFX

Há jovens a ler Dostoievski e “calhamaços” com centenas de páginas em VFX
Lourenço Fonseca e Sofia Gargas não dispensam a leitura e chegaram à final do concurso municipal de leitura de VFX - foto O MIRANTE

A leitura continua a conquistar jovens em Vila Franca de Xira, que não se afastam de livros exigentes nem de obras com centenas de páginas. Entre clássicos da literatura e histórias contemporâneas, há uma geração que resiste ao domínio dos ecrãs. O gosto pelos livros marcou a final do Concurso Municipal de Leitura do concelho.

Aos 14 anos, Lourenço Fonseca já lê Fiódor Dostoievski e não se intimida com livros densos e exigentes, uma raridade entre jovens da sua idade. A seu lado, Sofia Gargas, de apenas 11 anos, mergulha sem receios em obras com centenas de páginas, mostrando que o gosto pela leitura continua vivo entre os mais novos.
Aluno da Escola Professor Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, Lourenço frequenta o 9.º ano e garante que a leitura faz parte da sua vida desde que aprendeu a ler. Recorda-se de, aos sete anos, já se aventurar por livros mais avançados, muitas vezes incentivado pelos pais, que lhe deram a conhecer novos autores e alimentaram esse hábito. Hoje, divide-se entre o livro físico e os e-books, que reconhece serem mais práticos. A descoberta de Dostoievski fascinou-o e, por isso, participou na final da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira com a obra “Crime e Castigo”. Também Sofia Gargas, aluna da Escola Soeiro Pereira Gomes, em Alhandra, revela uma relação próxima com a leitura. Com 11 anos e a frequentar o 5.º ano, começou a dedicar-se aos livros a partir do 2.º ano de escolaridade, muito por influência da família e do centro de estudos que frequenta. Para a final do concurso de leitura, elegeu “A Koisa”, uma história que descreve como envolvente e desafiante. “Quantas mais páginas, mais enterrada fico no livro”, conta, referindo que prefere muitas vezes ficar a ler a estar agarrada ao telemóvel.

Bibliotecas continuam a ser frequentadas por jovens
Chegaram à final da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira 46 alunos do ensino público e privado, dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário do concelho. A iniciativa é organizada pelo Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares (SABE) da Divisão de Bibliotecas e Arquivo, com o objectivo de estimular o gosto pela leitura e promover a melhoria da compreensão, a leitura em voz alta e o domínio da língua portuguesa. A final decorreu no dia 17 de Abril, na Biblioteca da Póvoa de Santa Iria, e contou com a leitura de vários excertos de livros escolhidos pelos jovens participantes, professores e alguns pais.
“Não podemos ignorar o digital, a tecnologia, mas acho que as bibliotecas também têm de se adaptar a isso e criar serviços e projectos que possam trazer mais do que o simples facto de vir à biblioteca, que já é muitíssimo bom. Quando dizemos que os miúdos não lêem nada e que só querem saber do computador, vemos aqui um nível de maturidade e de interesse dos jovens neste concurso”, afirmou a O MIRANTE Conceição Matos, coordenadora do Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares, bibliotecária e júri no concurso de leitura.

Mais do que ler, compreender as obras
Helena Brígida, professora e coordenadora interconcelhia da Rede de Bibliotecas Escolares, acompanha o trabalho dos professores bibliotecários em várias escolas e ajuda a desenvolver dinâmicas de promoção da leitura. A docente, elemento do júri, garante que os alunos ainda se deslocam às bibliotecas da escola para fazer pesquisas, apesar da oferta da Internet. “Eles precisam de continuar a saber pesquisar numa enciclopédia, consultar um dicionário, senão perdem esses hábitos”, afirma, sublinhando também a existência de projectos como o “Dez minutos a ler”, que consiste em reservar dez minutos de uma aula, seja ela qual for, para os alunos lerem um livro à sua escolha, ou o “Livro à Mão”, em que o aluno que termina uma tarefa mais cedo pode pegar num livro e ler enquanto os colegas terminam os seus trabalhos.
Artur Santos, mentor do projecto “Poesia no Palácio”, que decorre há 12 anos no Palácio da Quinta Municipal da Piedade, e jurado do concurso de leitura, admite que este ano já contava com a qualidade e os temas que os alunos trouxeram a palco através da leitura dos seus textos. “Clarividentes, inteligentes e dedicados” foram alguns dos adjectivos que usou para elogiar os alunos, refutando a ideia generalizada de que a juventude de hoje “está perdida”. “Aquilo que eu valorizo mais é não só a dicção e ser claro quando se lê, mas a emoção com que se lê. O compreender aquilo que estão a ler. E estes alunos demonstram que compreendem o que estão a ler”, explicou.
A lista dos vencedores da 3.ª edição do Concurso Municipal de Leitura de Vila Franca de Xira será ainda publicada na página oficial na Internet da rede de bibliotecas do concelho.

Lourenço Fonseca e Sofia Gargas não dispensam a leitura e chegaram à final do concurso municipal de leitura de VFX - foto O MIRANTE

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