Azambuja põe famílias e crianças a brincar na rua
Iniciativa Brincar Lá Fora reflecte a importância de dedicar tempo à brincadeira em família no exterior, longe dos ecrãs e das tarefas rotineiras da casa. O projecto é da Câmara de Azambuja e levou a um jardim público brincadeiras tradicionais, com materiais ecológicos e naturais.
Há um estendal com folhas penduradas ao sol cujas sombras inspiram a criação artística através da pintura, caixas de ovos coloridas a recriar um tetris - icónico jogo quebra-cabeças - ou simples caixas de cartão coladas com fita-cola que se tornam num túnel divertido. Estamos no Parque da Areeira, em Azambuja, que foi transformado num autêntico parque de diversão ao ar livre para receber o Brincar Lá Fora. Um projecto da Câmara de Azambuja para “mostrar às crianças e famílias que há uma vida lá fora” e que, como nos diz a técnica da Divisão de Ambiente, Carla Figueiredo, o que não falta no concelho são parques e jardins que podem ser mais aproveitados para explorar, conviver e brincar.
A ideia, que se pôs em prática em Março e teve um segundo momento no dia 18 de Abril, começou no Parque da Areeira e Rua da Água Férrea, na vila de Azambuja, mas tem como ambição chegar “a outras freguesias e proporcionar às famílias momentos de convívio”, mostrando que “com pouco investimento se consegue brincar na rua e usufruir dos espaços exteriores em vez de se ficar dentro de casa”, explica a chefe de Divisão Socioeducativa, Zília Brito. Até porque brincar estimula várias áreas do desenvolvimento das crianças, ao nível cognitivo, emocional, criativo, da motricidade, da felicidade e bem-estar geral, notam.
Com tantos benefícios seria de esperar que a brincadeira estivesse presente naquilo que é a rotina das crianças e das suas famílias, mas a realidade parece mostrar o oposto. O último estudo feito sobre esta matéria pelo Instituto de Apoio à Criança mostra que mais de metade das crianças em Portugal (52%) brinca menos de uma hora por dia com a família e apenas 9% das crianças têm entre duas e três horas de brincadeira diária em contexto familiar. Uma realidade que não é transversal a todas as famílias, mas que também se faz sentir nas residentes em Azambuja.
“Sentimos que as famílias se estão a fechar em si mesmas: estão muito no telemóvel e não há uma dinâmica de brincadeira com os filhos. Às vezes são as próprias crianças que identificam: o meu pai não tem tempo para brincar comigo. E deixam de procurar. Temos crianças que nos dizem: eu até gostava de ir para a rua brincar ou andar de bicicleta, mas os meus pais não têm tempo porque estão no telemóvel ou a cuidar da casa ou a cozinhar”, alerta a psicóloga da Divisão Socioeducativa, Catarina Gonçalves.
“Temos de brincar com os nossos filhos”
Desde há algum tempo que a psicóloga tem vindo a aperceber-se de “uma mudança de paradigma nas famílias” e que as tem afastado do que seria natural: a brincadeira livre na rua, onde se usam os materiais disponíveis. “Uma meia hora, por exemplo, faria toda a diferença na vida de uma criança. É um tempo que é só deles e das suas famílias, que as aproxima, que traz bem-estar e que promove a relação entre pais e filhos”, diz Catarina Gonçalves.
Para Catarina Gomes e a sua filha Maria Benavente, de seis anos, a brincadeira faz-se com regularidade no exterior. Mas percebe que “cada vez menos é uma realidade. Cada vez mais usamos telas para os manter quietos, porque cada vez há menos paciência, menos tempo e menos vontade. Temos de nos voltar a obrigar a brincar com os nossos filhos. A deixá-los ser crianças e não querer que cresçam demasiado depressa”.
Na iniciativa, que envolve mais de uma dezena de técnicos do município, as actividades foram pensadas ao detalhe para que as crianças - e quem as acompanha - sejam levadas a enfrentar desafios ao mesmo tempo que trabalham competências como a concentração, criatividade, abstração, coordenação e resiliência. “Aqui têm também de brincar com outras crianças e esperar pela sua vez”, nota a psicóloga. Além dos jogos criados com elementos reaproveitados, como as caixas de ovos, ou elementos naturais como plantas a fazer de pincéis ou paus a convidar a construções criativas, estão disponíveis Jogos do Hélder, com foco na sustentabilidade e interacção social. Nestes, nota Carla Figueiredo, “a criança à terceira tentativa já está a desistir ou a demonstrar impaciência, porque é um jogo manual e não digital”.
É junto a um destes jogos tradicionais em madeira que encontramos o casal Tânia Tomás e Milton Almeida, a brincar alegremente com os seus filhos, Vicente e Gabriel. Como pano de fundo vê-se um cantinho dedicado à leitura, com tendas improvisadas e com a Biblioteca Itinerante do Concelho de Azambuja de portas abertas. “O que pretendemos aqui é fazer um despertar e após este despertar tentar que os pais identifiquem as suas lacunas e o que podem desenvolver daí para a frente para melhorar o tempo de brincadeira em família”, remata Carla Figueiredo.


