“Os Campinos” renascem das cinzas e voltam a dançar em Vila Chã de Ourique
Depois de um ano e meio de silêncio e à beira do desaparecimento, o rancho mais antigo do Ribatejo voltou à actividade no dia em que celebrou nove décadas de história. Nova direcção promete dar futuro à tradição.
Há tradições que resistem ao tempo e outras precisam de ser resgatadas antes que desapareçam. O Rancho Folclórico de Vila Chã de Ourique “Os Campinos” esteve perto de não chegar aos 90 anos, mas regressou à actividade precisamente no dia em que assinalou essa marca histórica, a 19 de Abril, num momento carregado de simbolismo para a freguesia. Fundado em 1935, o grupo manteve-se activo durante quase nove décadas, até que, em 2023, uma sucessão de acontecimentos levou à sua paralisação. A morte de uma jovem pertencente a uma família profundamente ligada ao rancho teve um impacto devastador. O pai, a mãe e três filhas integravam o grupo e, com o luto, quatro pares abandonaram de imediato. “Quando morreu uma filha, existiram quatro pares que saíram logo. O rancho foi abaixo”, recorda Hélder Anacleto, um dos rostos do processo de recuperação. A partir daí, as dificuldades acumularam-se.
Apesar de um apelo público para atrair novos elementos, o rancho não conseguiu recompor-se e acabou por encerrar portas no final de 2023. Seguiu-se um período de cerca de um ano e meio de silêncio, sentido pela população como a perda de uma parte da sua identidade colectiva. Perante o risco de desaparecimento definitivo, a Junta de Freguesia de Vila Chã de Ourique decidiu intervir. Em Novembro de 2023 promoveu uma reunião com os responsáveis do grupo e, com o fim do ciclo da antiga direcção, avançou com a criação de um grupo de trabalho independente. O objectivo era claro: garantir que o 90.º aniversário não passava sem o rancho subir ao palco. “Temos esse dever, que as associações e tudo o que faça parte da nossa história não acabem. Isto é também a identidade da nossa terra”, sublinha a presidente da junta, Teresa Nogueira.
O trabalho arrancou no início de 2024 e traduziu-se em três meses intensos de contactos, convites e mobilização da comunidade. Muitos dos que aceitaram integrar a nova estrutura não tinham qualquer ligação anterior ao rancho, mas recusaram ver desaparecer uma das maiores referências culturais da freguesia. Para assegurar a actuação na gala comemorativa, foi necessária a colaboração do Rancho Folclórico de Vale da Pedra, apadrinhado pelo grupo de Vila Chã de Ourique. Em conjunto, conseguiram reunir os 16 pares necessários para as quatro quadras apresentadas.
A nova direcção, composta por 11 elementos e ainda por formalizar, é liderada por Maria Leonor da Costa Silva Novais, de 51 anos. Embora não seja natural da freguesia, vive em Vila Chã há 14 anos e traz consigo uma forte ligação ao folclore, fruto dos anos em que dançou no Rancho Folclórico de Samora Correia. “Sendo de outra região, senti que o rancho, sendo o mais antigo do Ribatejo, merecia continuidade. O importante agora é assumir e revitalizar”, afirma. Mais do que garantir a sobrevivência, a nova liderança quer fazer crescer o projecto. A aposta passa por trabalhar com as escolas, envolver crianças, recuperar antigos elementos e levar o rancho a novos palcos, desde festas populares a espaços turísticos. “O folclore tem de ser uma moda, tem de ser um orgulho”, defende.
Os primeiros sinais são encorajadores. Nos ensaios para a gala já apareceram crianças, muitas delas filhos de dançarinos, e também antigos elementos que não participavam há décadas. “Juntou-se muita gente em torno disto”, reconhece Teresa Nogueira. A celebração dos 90 anos foi a afirmação de resistência e de vontade colectiva. Com alguns fundadores ainda vivos e homenageados na cerimónia, o rancho voltou a dar passos firmes e a música regressou a Vila Chã de Ourique, onde “Os Campinos” querem dançar rumo ao centenário.


