O dia em que a Chamusca sai ao campo e enche a vila de tradição
Na Chamusca, a Quinta-Feira de Ascensão é o dia em que o concelho se reencontra com a sua própria identidade. A manhã começa nos campos, com a apanha da espiga e os ramos que simbolizam fartura, saúde e protecção, e ganha força nas ruas da vila, onde a entrada de toiros junta milhares de pessoas num dos momentos mais aguardados da festa.
Na Chamusca há um dia em que o concelho se levanta mais cedo, se veste de tradição e sai para a rua com orgulho nas suas raíses. A Quinta-Feira de Ascensão, também chamada Quinta-Feira da Espiga, é o dia maior do concelho: começa nos campos, com a apanha da espiga, e ganha corpo na vila, com a entrada de toiros que todos os anos arrasta multidões à Rua Direita de São Pedro. É religião, campo, festa, bairrismo, memória e alguma saudável transgressão..
A manhã nasce em romaria. Famílias inteiras juntam-se para apanhar a espiga nos campos da lezíria, mantendo vivo um ritual que resiste ao tempo e à pressa dos dias modernos. Há quem vá de carro, mas também quem ainda escolha charretes, tractores ou bicicletas. O ramo leva espigas de trigo, malmequeres, papoilas, oliveira, videira e alecrim ou rosmaninho, símbolos de fartura, saúde, paz, vida e amor, que depois se guardam em casa como bênção para o ano inteiro.
Mas a Ascensão na Chamusca nunca é apenas contemplação. É também encontro, reencontro e convívio. É o regresso dos que vivem fora, a mesa posta, o copo partilhado, a conversa com os mais velhos, as histórias que fazem de uma terra uma comunidade. Esta é também uma altura para “sair da linha” em nome das tradições da terra, sem perder o sentido de pertença.
A entrada de toiros é o momento mais aguardado, aquele em que a multidão se junta na rua para viver a excitação e ansiedade da “entrada”. Toiros, cabrestos, campinos e cavaleiros atravessam a artéria principal em direcção à praça, num percurso de cerca de quilómetro e meio que dura poucos minutos, mas fica gravado na memória de quem assiste.
A Ascensão é a prova de que existe resistência à cultura e às tradições da terra. Enquanto houver quem se levante cedo para ir ao campo, quem ensine aos mais novos o significado da espiga, quem volte à terra para ver os toiros e abraçar os amigos, a Chamusca continuará a subir, nesse dia, ao ponto mais alto da sua alma colectiva.


