Quinta-Feira de Ascensão: a Chamusca entre a espiga, os toiros e a saudade dos emigrantes
Quinta-Feira de Ascensão voltou a mostrar a Chamusca no seu estado mais puro: de manhã, ligada à terra pela tradição da Espiga; à tarde, vibrante e popular com a Entrada de Toiros a encher a Rua Direita de São Pedro. O MIRANTE viveu o dia no terreno e transmitiu em directo para dezenas de milhares de pessoas, muitas delas emigrantes, que acompanharam à distância uma festa onde a identidade ribatejana continua a falar mais alto.
Na Quinta-Feira de Ascensão a Chamusca volta a ser aquilo que nunca deixou de ser: uma terra de gente agarrada às raízes, à festa, ao campo e à emoção de ver os toiros correrem pela Rua Direita de São Pedro. O MIRANTE viveu a festa por dentro, com a câmara ligada em directo ao mundo através da sua página oficial de Facebook. Depressa se percebe que aquela manhã de 14 de Maio não cabe apenas nas ruas da vila. Cabe também nos telemóveis de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo, nomeadamente pela Suíça, França, Luxemburgo e por muitos concelhos de Portugal, que foram acompanhando em directo cada passo.
A Quinta-Feira de Espiga começa cedo, como manda a tradição, às oito da manhã, com encontro junto ao quartel dos bombeiros voluntários. Antes da multidão se encostar às barreiras para a Entrada de Toiros, há quem vá ao campo apanhar a espiga, gesto simples e antigo que continua a ligar a Chamusca à terra, à fé e aos ciclos da natureza. O presidente da União de Freguesias da Chamusca e Pinheiro Grande, Jorge Santos, sublinha precisamente essa ligação profunda entre a freguesia, a tradição e a população que todos os anos regressa à rua e ao campo para cumprir o ritual. A seu lado, o presidente da Câmara Municipal da Chamusca, Nuno Mira, que vive a festa pela primeira vez em funções, destaca a importância de valorizar a identidade do certame, defendendo uma Ascensão com mais autenticidade, melhor comunicação e capacidade para projectar o concelho.
Pela manhã adentro, por volta das 10h30, a Rua Direita de São Pedro começa a encher-se de gente de ponta a ponta à espera da tradicional Entrada de Toiros. Tendas improvisadas, grelhadores na rua e muita bebida e música animam aquela rua emblemática que atravessa toda a vila. Há famílias inteiras, aficionados, curiosos, emigrantes que regressam, jovens e adultos que ainda não tinham ido à cama. Na primeira passagem dos cabrestos, campinos e cavaleiros, da praça de toiros em direcção ao Areal, sente-se o prender da respiração. Foram minutos intensos, de emoção controlada, com a Banda da Carregueira a marcar o ritmo, acompanhada pela romaria de bicicleta do Grupo Cultural de Riachos. Também os grupos de música de rua não faltam à festa e animam o povo que dança ao ritmo das canções populares.
Por volta das 13h15, as colunas “gritam” aquilo que todos querem ouvir. “Faltam dois minutos para a entrada começar”. Raúl Caldeira, a voz desta Ascensão depois de ter sido afastado da apresentação do certame pelo anterior executivo, anuncia que vão ser quatro toiros, dois pretos e dois castanhos “chorreados”, como se diz na gíria tauromáquica. E quando se ouve “os toiros estão na rua” ouve-se ao mesmo tempo o “broá” da multidão em toda a Rua Direita. A entrada decorre em pouco mais de três minutos, sem incidentes, com uma ou outra tentativa de retirar os toiros e uma pega de cernelha que dura apenas uns metros. Os toiros entram na centenária praça de toiros e os campinos e cavaleiros abraçam-se e parabenizam-se pelo bom trabalho e por tudo ter terminado em segurança.
No dia 14 de Maio a Chamusca voltou a reencontrar-se com a identidade e a tradição que continua a juntar gerações. Esta é uma festa que pertence aos chamusquenses, mas que também faz bater todos os que têm o coração ribatejano.


