Cultura | 05-06-2026 12:48

Mação ajuda a pôr o noroeste europeu no mapa da arte rupestre mais antiga

Mação ajuda a pôr o noroeste europeu no mapa da arte rupestre mais antiga

Investigadores do Instituto Terra e Memória participaram na confirmação de pinturas com pelo menos 17.100 anos numa gruta do País de Gales.

Investigadores ligados ao Instituto Terra e Memória (ITM), em Mação, participaram na confirmação da mais antiga evidência de arte rupestre conhecida no noroeste europeu, identificada na gruta de Bacon Hole, no sul do País de Gales. As marcas, datadas de há pelo menos 17.100 anos, resultam da acção humana e não de fenómenos naturais, como se admitiu durante décadas. A equipa portuguesa, associada ao ITM, ao Instituto Politécnico de Tomar e ao Centro de Geociências, teve um papel determinante na caracterização dos pigmentos e na recolha de amostras de calcite formadas naturalmente sobre as pinturas, trabalho essencial para enquadrar cronologicamente as linhas vermelhas existentes na gruta. “Foi surpreendente, pois temos evidências muito antigas para a arte rupestre desta parte do mundo”, afirmou à Lusa Sara Garcês, arqueóloga e investigadora do ITM e do IPT. A investigadora sublinha que a descoberta abre “uma nova perspectiva para a investigação naquela área”, onde existem outras grutas que poderão ainda conservar vestígios de expressões artísticas do passado.
As pinturas de Bacon Hole tinham sido identificadas pela primeira vez em 1912 pelos investigadores William Sollas e Henri Breuil, mas acabaram por ser desvalorizadas em 1928, quando foram interpretadas como resultado de infiltrações minerais na rocha. Mais de um século depois, uma equipa internacional liderada pelo arqueólogo George Nash recorreu a novos métodos de análise e datação por urânio-tório para demonstrar que as marcas são efectivamente obra humana. “Esta descoberta valida a intuição original de William Sollas e do Abbé Breuil em 1912 e reposiciona o noroeste da Europa no mapa do Paleolítico Superior”, destacou Sara Garcês, lembrando que essa região não é normalmente associada a manifestações tão antigas de arte rupestre.
Os trabalhos de campo decorreram em duas campanhas, realizadas entre 2023 e 2024, cada uma com cerca de uma semana de duração. Os resultados foram agora divulgados num artigo científico publicado na revista Quaternary. Para Sara Garcês, as linhas paralelas encontradas na gruta não devem ser vistas apenas como marcas antigas numa parede. “Quando olhamos para estas linhas paralelas vemos vestígios de um sistema de comunicação não-verbal e de comportamento simbólico complexo”, afirmou, defendendo que a descoberta permite compreender melhor as populações que habitaram aquela região há mais de 17 mil anos. A investigadora estabelece também uma ligação entre este achado e o trabalho desenvolvido em Mação, nomeadamente no Vale do Ocreza, onde se estudam gravuras rupestres do Paleolítico Superior.

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