Cultura | 07-06-2026 18:00

Campino Daniel Silva ainda sonha voltar a montar o cavalo castanho

Campino Daniel Silva ainda sonha voltar a montar o cavalo castanho
Entre aplausos e abraços, Azambuja prestou tributo a um dos seus campinos - foto O MIRANTE

Daniel Silva foi homenageado na Feira de Maio, em Azambuja, numa cerimónia carregada de emoção. O campino, que sofreu um grave acidente em 2022, continua preso à memória do campo e ao sonho maior de voltar a montar o seu cavalo castanho.

Daniel Silva não é homem de grandes falas nem de se pôr em bicos de pés. Fez-se campino como se faziam os homens do campo antigo: a aprender primeiro a respeitar os animais, a levantar-se cedo e a conhecer o perigo sem lhe chamar valentia. A vida levou-o por herdades, ganadarias e dias compridos de trabalho duro, até que uma queda violenta, nas festas de Coruche de Agosto de 2022, lhe mudou o corpo e o destino. Impossibilitado de montar, aos 48 anos, o campino mantém o sonho de um dia voltar a cavalgar com o seu cavalo castanho.
Foi esse homem, marcado pela vida dura da campinagem e pela violência de um acidente que o deixou em coma durante um mês, que Azambuja homenageou no domingo da centenária Feira de Maio. Entre os Paços do Concelho, a Igreja Matriz e o Pelourinho, a cerimónia de homenagem ao campino teve este ano uma emoção diferente com centenas de olhos postos num campino de rosto sofrido sentado numa charrete.
Natural de Grândola, Daniel Silva começou por trabalhar na construção civil e mais tarde foi talhante. Mas nunca lhe saiu do pensamento uma paixão antiga: a campinagem. Pela mão de Mário Gordo, e depois de comprar o seu primeiro cavalo, chamado Nilo, começou por baixo: a pôr brincos em bezerros bravos, a trabalhar duro e a aprender depressa que o gado não perdoa distracções. Mais tarde começou a apartar e fechar touros para corridas. Passou pela ganadaria Lampreia, onde foi maioral do gado bravo, e viria depois a ser convidado para maioral de uma vacada mansa na herdade de Monte Novo.

Queda brutal, coma e reforma por invalidez
A 14 de Agosto de 2022, nas festas de Coruche, durante as provas de cabrestos, a vida deu-lhe a volta. O cavalo que montava embateu no boi da guia da casa agrícola do seu patrão. A queda foi brutal. Seguiu-se o coma, a recuperação longa, as sequelas graves e a reforma por invalidez. Para quem fez vida em cima do cavalo e no meio do gado, a imobilidade é uma segunda dor. Mas Daniel não se deixou reduzir ao acidente. A sua história continua a ser contada pelo trabalho que fez, pelos amigos que o acompanham, pela família que o ampara e pelo sonho simples e teimoso de voltar a sentir as rédeas nas mãos e os estribos nos pés.
Na cerimónia, o presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, lembrou que homenagear o campino é homenagear mais do que uma profissão. É reconhecer um “modo de vida” feito de “madrugadas, intempéries, sacrifício, responsabilidade” e respeito pela terra e pelos animais. O autarca sublinhou que não há identidade ribatejana sem o campino, o cavalo, o colete encarnado, a lezíria e o toiro bravo.
E embora se diga que são cada vez menos ou que a campinagem tende a seguir o caminho de profissão extinta, a praça do município voltou a encher-se de barretes e coletes encarnados a rodear o homenageado. Nele está espelhado, como referiu a direcção da Associação Cultural “A Poisada do Campino”, “um mundo feito de madrugadas frias, de poeira levantada pelos cascos, de silêncio entre homens que se entendem pelo olhar”. E foi entre olhares e trocas de abraços e apertos de mãos que se cumpriu o momento mais solene do certame que seguiu caminho pelas ruas engalanadas da vila de Azambuja antes de mais uma espera de toiros.

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