Cultura | 09-06-2026 07:00

Boinas Verdes de Tancos continuam a ensinar a voar e a guardar a memória dos paraquedistas

Boinas Verdes de Tancos continuam a ensinar a voar e a guardar a memória dos paraquedistas
Carlos Tavares prestes a descolar em Tancos - foto O MIRANTE

Pára-clube Nacional Os Boinas Verdes, sediado em Vila Nova da Barquinha, prepara-se para assinalar 50 anos em 2027. Na Área Militar de Tancos, entre estreantes nervosos, veteranos com milhares de saltos e dirigentes que carregam a história da instituição, mantém-se viva a adrenalina do salto e o legado das tropas paraquedistas portuguesas.

Todas as semanas, a área militar de Tancos volta a encher-se do som dos aviões, da azáfama dos instrutores e da ansiedade de quem se prepara para saltar para o vazio. É ali que o Pára-clube Nacional Os Boinas Verdes continua a formar paraquedistas e a receber aventureiros que procuram, nem que seja por breves instantes, a sensação de voar. Entre a boa disposição e o nervosismo, cruzam-se histórias de quem salta pela primeira vez e de quem já perdeu a conta às vezes em que enfrentou o céu. Rosa Margarida, natural de Tábua, Coimbra, regressou a Tancos para realizar o segundo salto da sua vida. A ligação ao paraquedismo começou há cerca de dois anos, quando acompanhou o marido, militar, numa formação de queda livre no clube.
Tinha 51 anos quando fez o primeiro salto, apanhada de surpresa pelos instrutores. “Estava só a observar e do nada disseram-me: ‘vai equipar!’. Fiquei sem reacção e com receio, mas lá fui”, recorda, entre risos, a O MIRANTE. O medo inicial deu lugar a uma memória difícil de traduzir por palavras. “Há um momento de silêncio que não conseguimos descrever. Uma coisa é estarmos cá em baixo, outra é lá em cima, com uma panorâmica completamente diferente”, conta. Para Rosa Margarida, a confiança transmitida pelos formadores é decisiva para vencer o receio. Ainda assim, reconhece que a experiência não é para todos. No primeiro salto, lembra-se de uma mulher que, já dentro do avião, acabou por desistir. “Era a quarta vez que entrava e, quando chegava o momento, dizia que não conseguia. É normal. Nem toda a gente consegue ultrapassar aquele medo”, sublinha.
No mesmo espaço, Alexandre Ferreira observa a actividade com a serenidade de quem fez do paraquedismo uma vida. Natural da Póvoa de Santarém, foi militar paraquedista, esteve em Moçambique durante a Guerra do Ultramar, entre 1971 e 1973, e regressou depois da independência para nova missão. Ao longo da carreira somou cerca de dois mil saltos em queda livre e participou em competições, onde chegou a bater recordes. A paixão pelos aviões nasceu cedo. Desde os nove anos que caminhava quilómetros para os ver descolar. Mais tarde, essa curiosidade transformou-se numa carreira militar marcada pela exigência e pelo risco. “Quando havia uma grande confusão, éramos chamados de repente para saltar e ajudar em operações”, recorda. Hoje, admite que já não sente necessidade de voltar a saltar. “Já vivi muito. O prazer de saltar durante um minuto já não seria o mesmo”, confessa, embora continue a emocionar-se ao ver novos praticantes enfrentar o primeiro salto.
À frente do clube está Carlos Jerónimo, antigo Chefe do Estado-Maior do Exército e um dos sócios fundadores da associação. Aos 70 anos, continua profundamente ligado ao paraquedismo e recorda o primeiro salto, feito em 1974, numa altura em que ainda se usavam os antigos paraquedas redondos. “O primeiro salto é o desconhecido. No segundo já pensamos: isto é alto. Depois, já não se estranha”, afirma. Presidente do Pára-clube há cerca de 25 anos, Carlos Jerónimo garante que a colectividade é actualmente a que mais paraquedistas forma em Portugal e uma das mais activas em competição. No ano passado, a equipa conquistou o título nacional de precisão de aterragem. Mas o orgulho convive com dificuldades antigas: falta de renovação geracional nos dirigentes, aumento dos custos e uma dívida que, segundo diz, já existia quando assumiu a liderança. Ainda assim, o dirigente não esconde o orgulho em continuar ligado aos Boinas Verdes. “É uma aspiração máxima, algo que parece inalcançável, mas que se torna possível através da disciplina, entrega e superação pessoal”, resume.

Carlos Jerónimo - foto O MIRANTE
Rosa Margarida - foto O MIRANTE

A adrenalina que até Carlos Tavares quis experimentar

Carlos Tavares, antigo presidente executivo da Stellantis, trocou por uma manhã o universo automóvel pela adrenalina dos céus e saltou de paraquedas na Área Militar de Tancos. O desafio partiu de Alexandre Ferreira, presidente do Centro de Solidariedade Social Nossa Senhora da Luz, instituição que o empresário tem apoiado desde que se fixou na Póvoa de Santarém. Acompanhado por antigos paraquedistas ligados ao Para-clube Nacional Os Boinas Verdes, Carlos Tavares recebeu formação teórica e prática antes de embarcar para um voo de cerca de 20 minutos sobre a região. O salto, realizado a cerca de três mil pés de altitude, foi feito com o formador João Franco, conhecido por “Espanhol”, sob o olhar atento da esposa, que registou o momento. Já em terra, visivelmente entusiasmado, o antigo gestor classificou a experiência como “extraordinária” e destacou a sensação única da queda livre e da estabilização em voo. Após o salto, visitou ainda a sede do Para-clube, em Vila Nova da Barquinha, mostrando-se fascinado pela história da colectividade, que celebra 50 anos em 2027.

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