Manuel Alves: o último guardião da alma da Carregueira
Aos 86 anos, Manuel Alves continua a ser o verdadeiro bairrista da Carregueira, no concelho da Chamusca. Foi para Lisboa com 10 anos, fez vida no trabalho, correu o país como viajante das Manufaturas Roma e regressou à terra onde nasceu. Hoje, entre o Centro de Dia, o cuidado à mulher com Alzheimer e o acompanhamento das marchas populares, é um dos rostos de uma geração que fez do bairrismo uma forma de estar na vida.
Manuel Alves fala da Carregueira como a sua verdadeira casa, mesmo tendo passado grande parte da vida longe dela. Nasceu na freguesia do concelho da Chamusca, mas saiu cedo. Tinha apenas 10 anos quando ruma a Lisboa. Parte sem a quarta classe feita, sem grande escola e com a urgência de quem, naquele tempo, tinha de começar cedo a procurar o seu lugar no mundo. Em Lisboa, frequenta a Escola 37, na Rua de Santa Marta, perto do Hospital de Santa Marta, zona onde o pai trabalhava. Faz o exame da quarta classe e começa a trabalhar. Primeiro em ourives, depois nas cartonagens, onde entra quase por insistência. Responde a um anúncio no Diário de Notícias, explica que procura estabilidade e aceita começar à experiência. Nem chega aos dois meses. Ao fim do primeiro mês já o patrão lhe reconhece jeito para o ofício e aumenta-lhe o salário, explica em conversa com O MIRANTE à margem da cerimónia de aniversário da banda da Carregueira.
Mais tarde, um viajante da empresa onde trabalhava estabelece-se por conta própria e convida-o a acompanhá-lo. Assim entra Manuel Alves numa casa que ajudou a erguer desde o princípio: a Manufaturas Roma. “Abriu com cinco empregados. Hoje tem 50”, recorda. Fica na empresa 47 anos. Trabalha até aos 70. Durante cerca de 30 anos corre o país como viajante, muitas vezes passando semanas fora de casa. A mulher segura a vida familiar em Lisboa. Os dois constroem duas casas, uma delas na Carregueira, onde nasceram e onde nunca imaginaram vir a viver por necessidade, com a chegada da doença. A mulher, hoje com 91 anos, tem Alzheimer. Manuel Alves, aos 86, assume o cuidado diário com a mesma naturalidade com que fala de dever. “A pessoa que me ajudou toda a vida foi a minha mulher”, diz. A doença muda-lhe a vida de um dia para o outro. Ela já não o reconhece, não conversa, mas procura-o. E isso basta para ele estar bem, vinca. Manuel Alves admite que fica destroçado, sem estar preparado para ver a companheira de uma vida naquela condição. O Centro de Dia torna-se então o apoio e companhia, salvação.
Manuel Alves continua ligado à terra, às associações, às marchas, às pessoas. É padrinho das marchas populares da Carregueira há 33 anos seguidos. Acompanha ensaios, aniversários, iniciativas e ajuda quando é preciso. Diz que colabora com todas as associações da Carregueira e arredores, sem querer deixar ninguém para trás. Só uma, brinca, ainda não lhe pediu ajuda: o grupo motard. Nas marchas, continua atento ao ritmo, à posição dos marchantes, à dança, à música e à madrinha. Vai aos ensaios, dá sugestões, observa, participa à sua maneira. A fotografia é outra forma de guardar as memórias da terra. Manuel Alves fotografa pessoas e momentos, revela as fotografias em papel e distribui-as pelos amigos. Não lhe basta ver a imagem num ecrã. Quer o objecto, a recordação palpável, o gesto de entregar a fotografia a quem nela aparece.
A vida também lhe trouxe a maior das perdas. O único filho, Paulo Manuel, morreu aos seis anos, vítima de meningite. Manuel Alves fala disso com a dor de quem nunca esquece. Ele e a mulher fizeram o luto juntos e seguiram juntos. Agora é ele quem fica, quem cuida, quem prepara tudo, até o futuro jazigo, onde quer deixar também sinais das associações a que pertenceu e continua a pertencer. Manuel Alves é de uma geração que já quase não existe e, também por isso, deve ser enaltecido para que os mais novos saibam como se constrói o carácter e os bons seres humanos.


