Cultura | 10-06-2026 12:00

Cartoonistas defendem a sua dama e alertam para ameaças à liberdade de expressão

Cartoonistas defendem a sua dama e alertam para ameaças à liberdade de expressão
António Antunes é o curador do Cartoon Xira - foto O MIRANTE

Debate sobre a importância da criação artística e os seus limites marcou o encerramento de mais uma edição do Cartoon Xira, em Vila Franca de Xira. Um encontro poucos dias depois de um autarca do Chega ter defendido a censura de algumas obras ali expostas.

O cartoonista António Antunes argumentou no domingo, 31 de Maio, em Vila Franca de Xira, que o cartoon enfrenta pressões de ordem política, apesar de continuar a ser uma forma legítima de crítica numa sociedade democrática. “Há forças políticas que gostavam que não houvesse qualquer espécie de liberdade de expressão”, afirmou António Antunes num debate subordinado ao tema “A situação do Cartoon na imprensa em Portugal e no mundo” no fecho do Cartoon Xira, sublinhando que o cartoon assenta numa “concepção crítica” em que “não há partido que esteja acima da crítica”. Isto numa altura em que um eleito municipal do Chega quis censurar alguns dos desenhos da mostra (ver outro texto nesta página).
Também curador do Cartoon Xira, António Antunes considerou que os cartoonistas estão frequentemente na linha de tiro, já que o seu trabalho suscita reacções negativas de forças políticas, religiosas ou outras entidades que não estão habituadas à crítica. “O problema é tentarem silenciar, tentarem censurar”, afirmou, acrescentando que essas tentativas fazem parte da realidade da profissão.
António Antunes admitiu que o actual contexto político, em Portugal e no plano internacional, pode representar um risco de retrocessos na liberdade de expressão, mas manifestou confiança na “resiliência democrática”. “O cartoon não pode mudar a política. Quando muito, pode ser um pequeno grão de areia contra a engrenagem do poder”, afirmou.
Apesar disso, sublinhou a importância de continuar a exercer essa função crítica, ainda que num contexto marcado “por dificuldades económicas” e pela crise da imprensa escrita. O artista apontou a precariedade como um dos principais problemas do sector, referindo que o cartoon “paga muito mal” e que a maioria dos autores acumula outras actividades profissionais.

Iliteracia da imagem
A ilustradora Cristina Sampaio sublinhou também que o cartoon tem hoje um impacto limitado na capacidade de alterar a realidade política, apesar da sua função crítica. A ilustradora exemplificou com casos internacionais, referindo que figuras amplamente caricaturadas e alvo de humor político continuam a alcançar sucesso eleitoral, o que, no seu entender, relativiza o poder transformador do cartoon. Ainda assim defendeu a importância de manter essa forma de expressão como um espaço de reflexão e questionamento. A autora chamou também a atenção para dificuldades na leitura das imagens por parte do público, considerando existir uma “iliteracia da imagem” que pode comprometer a compreensão das mensagens transmitidas.
Já o cartoonista André Carrilho alertou para os riscos associados à circulação de cartoons nas redes sociais, defendendo que a descontextualização das imagens pode alterar o seu significado original. Segundo Carrilho, ao contrário do que acontecia nos jornais em papel, onde os cartoons surgiam enquadrados pelas notícias, hoje as imagens circulam isoladamente, sendo frequentemente reaproveitadas e interpretadas fora do contexto em que foram criadas.

Eleito do Chega quis censurar Cartoon Xira por conter desenhos de André Ventura e Miguel Arruda

Francisco Fonseca classificou a exposição como sendo uma falta de respeito e teve de ouvir respostas da bancada socialista a lembrar-lhe que Salazar já morreu e que a censura está morta e enterrada.

Um eleito do Chega na Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, Francisco Fonseca, pediu numa das últimas reuniões daquele órgão que a câmara municipal retirasse todos os desenhos de André Ventura e de Miguel Arruda da exposição Cartoon Xira, que decorreu no Celeiro da Patriarcal. Francisco Fonseca acusou a Câmara de Vila Franca de Xira de esbanjar dinheiro na exposição e acusou António Antunes, um dos maiores cartoonistas nacionais, de não passar “de um activista contra o Chega que usa a arte do humor e da sátira como um pretexto para propagar ódio contra um partido político”. Acrescentou ser “lamentável” que a câmara financie a exposição com o dinheiro dos impostos dos munícipes.
“Uma coisa é fazer sátira, outra é usar a sátira contra um adversário político, que foi o que a câmara promoveu. Curiosamente, não vi o mesmo empenho dele nem grandes cartoons na exposição sobre o Montenegro ou o José Luís Carneiro”, criticou Francisco Fonseca.
Ana Carla Costa, da bancada do PS, não se conteve perante a intervenção do rival político e acusou o Chega de querer voltar à ditadura de Salazar. “Isto foi um apelo à censura, uma vergonha na democracia em que estamos e que mostra que Abril ainda não se cumpriu. Isto é o que irá acontecer sempre que o Chega ganhar um voto a mais dos portugueses. Censura à liberdade de cultura e informação”, criticou. A eleita considerou “impressionante” como numa estrutura democrática, como é a assembleia municipal, a bancada do Chega “se arrogue no direito de vir fazer censura a uma exposição de artistas”.
O presidente do município, Fernando Paulo Ferreira (PS), sorriu perante a intervenção do eleito do Chega e lembrou que o Cartoon Xira continuará a ser feito e a celebrar a liberdade de imprensa e de expressão. “Espero que quem a tenha visitado tenha gostado e continue a defender a liberdade”, rematou.

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