Cultura | 16-06-2026 18:00

BICA: a banda da APPACDM Santarém dá voz ao talento e palco à inclusão

BICA: a banda da APPACDM Santarém dá voz ao talento e palco à inclusão
A BICA mostra que a música também é uma forma de afirmar direitos, talento e participação - foto O MIRANTE

Nasceu dentro de uma IPSS, mas quer cada vez mais palco fora de portas. A Banda BICA, da APPACDM Santarém, pede “Três Minutos de Atenção”, mas dá muito mais do que isso. Dá uma lição sobre talento, trabalho e humanidade. E prova, sem discursos fáceis, que a inclusão também se faz quando o público deixa de olhar com pena e começa simplesmente a pedir “mais uma canção”.

A Banda BICA, fundada em 2022, na Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Santarém, nasceu da vontade de alguns utentes da instituição que quiseram ir mais longe nos projectos musicais que já existiam na casa. “Queriam fazer algo mais, algo diferente”, recordam os responsáveis pelo projecto. A primeira apresentação aconteceu em Dezembro desse ano e, desde então, a banda tem vindo a ganhar repertório, público e confiança, sendo hoje uma fonte de talento que dá voz à inclusão.
O grupo tem seis elementos e cada um ocupa o seu lugar em palco: há vozes principais, baixo, guitarra, pandeireta, cajón, carrilhão Orff e apoio técnico. A música é feita ao vivo, sem artifícios. “Não há nada gravado. O que acontece é aquilo que as pessoas vêem”, sublinha o professor de música e responsável pela parte musical do projecto, João Correia. A frase resume a filosofia da BICA: não se trata de disfarçar limitações, mas de pôr capacidades em cima do palco.
A técnica superior de Educação Especial e Reabilitação, Elisabete Patrício, olha para a banda como um espaço de desenvolvimento, mas também de liberdade. Há ganhos “a todos os níveis”: cognitivos, físicos, sociais, de auto-estima e autodeterminação. Ainda assim, ninguém é levado ao colo. “Tem de haver rigor, faz parte do processo artístico”, explica a equipa. Os ensaios acontecem às segundas e terças-feiras e, como em qualquer banda, tem de haver um sentido de compromisso.
Esse equilíbrio entre exigência e respeito pelos tempos de cada um é uma das marcas do projecto. Os ensaios nem sempre juntam todos ao mesmo tempo. Trabalha-se em pequenos grupos, ajustam-se instrumentos, lançam-se desafios. Rui Sousa usa uma escova para tocar cajón, porque é assim que o movimento funciona melhor. Alexandre Santos encontrou no carrilhão Orff o instrumento mais adequado. Carina Talhão dá vida à pandeireta com ritmo e alegria. A diferença, vinca Elisabete Patrício, não é obstáculo, mas um ponto de partida.
Catarina Adelino é uma das vozes da BICA e fala do palco como quem fala de uma conquista pessoal. “Sempre gostei muito de cantar, mas nunca pensei poder participar numa banda. Isto para mim é um sonho”, diz a vocalista com paralisia cerebral. Antes cantava em casa, no banho ou em karaokes. Agora canta “a sério”, num trabalho que lhe trouxe confiança. “Foi muito importante dizerem-me e perceber que eu era capaz, para não ter medo de alcançar os meus sonhos”, conta, lembrando o caminho que a levou a vencer a vergonha inicial.
Fábio Pais, 32 anos, também canta e ajuda a explicar o sentido de “Três Minutos de Atenção”, o recém-lançado EP de cinco originais da banda. A canção que dá nome ao disco fala de escuta e de tempo para os outros. “Temos de estar atentos para ouvir a música” e “estar atentos aos outros”, diz Fábio. Elisabete Patrício confirma que a ideia é mesmo essa: não deixar a vida passar sem olhar para quem está ao lado. O disco, gravado no estúdio Pé de Vento, em Salvaterra de Magos, com o apoio da Câmara de Santarém, W Shopping e Mundos Cruzados, envolveu a própria instituição, com letras e ideias nascidas dentro da instituição.
Rogério Lopes, 59 anos, é outro dos rostos da banda. Diz que canta desde pequeno e que em palco se sente “à vontade”. Gosta dos colegas, gosta do público e gosta de puxar pelas pessoas. A BICA já actuou em palcos importantes, como as Festas de São José, em Santarém, e em 31 de Maio apresentou o CD no W Shopping, perante cerca de duas centenas de pessoas. “Batem palmas, cantam, pedem mais uma”, contam os elementos do grupo. Como em qualquer concerto, como em qualquer banda que sabe conquistar quem a escuta, realça João Correia.

É essencial sair das paredes da instituição

Para o presidente da direcção da APPACDM, Luís Amaral, a BICA é muito mais do que uma actividade cultural. É “um instrumento muito importante de participação activa destas pessoas”, não apenas dentro da instituição, mas “muito mais na comunidade”. O dirigente defende que é essencial “sair das paredes da instituição” e mostrar o trabalho que ali se faz. “Quem não comunica, não existe”, afirma, assumindo que a banda ajuda a dar visibilidade à missão da APPACDM.
A instituição, uma IPSS que promove a integração social e a qualidade de vida de pessoas com deficiência intelectual, acompanha diariamente cerca de 580 a 600 pessoas nas suas várias respostas, do ensino especial à formação profissional, passando pelo apoio em escolas e pela resposta residencial. A missão, resume Luís Amaral, é “defender os direitos das pessoas com deficiência intelectual” em toda a sua dimensão, envolvendo também as famílias.
Mas, reconhece, ainda há caminho a fazer. Luís Amaral diz que ainda existe estigma e que, muitas vezes, a sociedade não procura conhecer o que estas instituições fazem. Por isso, defende uma atitude mais proactiva: “Não é preciso exibirmos, não é preciso superarmos, é preciso partilharmos aquilo que fazemos”. E na BICA isso faz-se com música, com ensaios, com falhas, com palmas e com uma ambição que já anda na ponta da língua: chegar à televisão.

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