Cultura | 23-06-2026 21:00

Nova geração agarra legado quase centenário da Casa do Povo de Minde

Nova geração agarra legado quase centenário da Casa do Povo de Minde
Os jovens dirigentes da colectividade cresceram no seio da colectividade que hoje lideram - foto O MIRANTE

Com uma média de idades de 23 anos, a nova direcção da Casa do Povo de Minde assume a liderança de uma das associações mais emblemáticas da região. Entre teatro, jazz, desporto, memória e identidade local, a colectividade continua a reinventar-se sem perder a ligação profunda à comunidade.

O aplauso que se ouviu no final da tomada de posse dos novos órgãos sociais da Casa do Povo de Minde não foi apenas dirigido aos jovens dirigentes que acabavam de assumir funções. Foi também um aplauso a uma história colectiva que atravessa gerações e que, quase um século depois da fundação da associação, continua a encontrar quem lhe queira dar futuro. O Cine-Teatro Rogério Venâncio, sede da colectividade, encheu-se primeiro para assistir à peça de teatro “Fora de Cena” e, depois, para acompanhar a tomada de posse da nova direcção. Entre copos, petiscos, música jazz e muitas conversas, o ambiente pareceu mais uma celebração comunitária do que uma cerimónia formal. Talvez tenha sido essa a melhor prova da vitalidade de uma instituição que continua profundamente ligada à população.
À frente da nova direcção estão Jaime Aguiar, presidente, e Inês Moreira, vice-presidente, ambos com 24 anos. Ele concluiu recentemente o mestrado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores; ela é médica. Têm vidas profissionais exigentes, mas nenhum dos dois se imagina afastado da Casa do Povo, à qual continuam a dedicar grande parte das horas vagas. A ligação começou cedo, através do núcleo de teatro, onde os pais de ambos participaram. Foi entre bastidores, ensaios e espectáculos que cresceram dentro da associação, antes de assumirem agora responsabilidades directivas.
Fundada em 1933, a história da Casa do Povo de Minde confunde-se com a própria história das casas do povo em Portugal. Antes da criação da Segurança Social, estas instituições asseguravam funções de apoio social e assistência às populações. Quando essas competências passaram para o Estado, muitas acabaram por desaparecer. A de Minde resistiu graças à forte actividade cultural e associativa que já desenvolvia. O teatro, que há décadas mobilizava a população, foi decisivo para evitar a extinção da colectividade. “Houve uma grande união da população para mostrar que a Casa do Povo tinha uma actividade para além daquilo que passou a ser assegurado pela Segurança Social”, sublinha Inês Moreira, destacando que esse envolvimento popular se manteve vivo ao longo dos anos. O próprio Cine-Teatro Rogério Venâncio, inaugurado nos anos 50, é exemplo dessa força comunitária. Jaime Aguiar recorda que o edifício foi construído com o esforço directo da população. “Não havia apoios como os que existem hoje, então foi mesmo a população que não só contribuiu financeiramente, como veio para aqui construir a Casa”, conta.
Actualmente, a Casa do Povo de Minde funciona através de quatro núcleos principais. O mais antigo é o grupo de teatro amador Boca de Cena, com mais de 70 anos de actividade. Existe também o MediaMinde, responsável pela TVMinde e pelo registo audiovisual da vida da vila; o Festival JazzMinde, uma referência nacional com mais de duas décadas de existência; e o Naturamente, onde se integra a equipa de trail Terrantez.
A diversidade das actividades ajuda a explicar a longevidade da associação, mas os novos dirigentes acreditam que há um factor ainda mais importante: o espírito associativo de Minde. “Minde é um pólo cultural e associativo muito grande. Todos nós andámos na banda filarmónica, nos escuteiros ou no teatro. O associativismo faz parte da nossa cultura local”, afirma Jaime Aguiar.

Jovens assumem responsabilidade de manter legado
Ao contrário do que acontece em muitas colectividades do país, a renovação geracional não tem sido um problema na Casa do Povo de Minde. A nova direcção foi formada sem grandes dificuldades. “Foi mesmo só convidar as pessoas e elas aceitaram logo. Acho que isso mostra a ligação com a casa e como os jovens gostam de Minde e não querem deixar esta associação envelhecer”, diz Inês Moreira. A estratégia passa agora por reforçar a autonomia dos vários núcleos, dando-lhes mais capacidade para concretizar os seus próprios projectos. Entre as prioridades estão a modernização de equipamentos, a valorização do teatro, a revitalização do cinema e o fortalecimento do JazzMinde. Há também uma preocupação clara em preservar as tradições locais, nomeadamente o minderico, a língua tradicional da vila. Um dos exemplos é a curta-metragem “A Cabiçalva”, feita pela TVMinde e integralmente escrita em minderico.

Jaime Aguiar dá rosto à renovação

Quando projectam a Casa do Povo daqui a duas décadas, os novos dirigentes imaginam uma associação mais equipada, mais dinâmica e, acima de tudo, fiel à missão que lhe deu origem: representar e servir Minde. “Queremos que continue a ser a Casa do Povo. Que esteja disponível para servir toda a população e todas as colectividades de Minde”, sublinham. Para Jaime Aguiar, assumir a liderança da instituição é, ao mesmo tempo, um privilégio e uma responsabilidade. “É um privilégio fazer parte desta história e uma responsabilidade acrescida conseguirmos manter este legado. Mas é algo que sempre foi possível graças ao amor por esta terra, pelo teatro, pela Casa do Povo”, afirma.

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