Ana Castanheiro Silva mantém vivo o bolo branco da Barrosa em forno de lenha
Entre o calor do forno, o cheiro da massa acabada de cozer e o vime trabalhado à mão, a artesã da Barrosa encontrou uma forma de guardar a memória da aldeia e de a levar a feiras e eventos.
Ana Cristina Castanheiro Silva, natural da Barrosa, no concelho de Benavente, foi uma das nove mulheres homenageadas nas janelas do Palácio do Infantado, em Samora Correia, no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, que decorreram durante o mês de Março. A distinção pública reconheceu o contributo de mulheres da comunidade e, no caso de Ana Castanheiro Silva, deu visibilidade a uma vida ligada à Barrosa, ao trabalho manual, ao bolo branco cozido em forno de lenha e à cestaria em vime que desenvolve com o marido, José Silva.
Nascida a 28 de Março de 1968, Ana Castanheiro Silva sempre viveu na aldeia onde cresceu e estudou. Recorda uma infância simples, de brincadeiras na rua e de convívio entre crianças, num tempo em que, como diz, “não havia computadores” e em que se ia para casa apenas quando a noite chegava. “Éramos mais felizes”, resume. Da Barrosa guarda a imagem de uma aldeia pequena, sossegada e bonita. “Não trocava a aldeia por outra”, afirma. A freguesia é a que tem menor área no concelho de Benavente e cerca de 600 habitantes, tendo celebrado em 2025 o 37.º aniversário da sua constituição como freguesia.
A ligação ao bolo branco vem de casa. O forno de lenha, feito há cerca de 40 anos pelo pai de Ana Castanheiro Silva e, entretanto, recuperado, era usado para cozer pão e bolos. Antigamente, recorda, os bolos faziam-se sobretudo para casamentos, como oferta, e, mais tarde, para o Natal, numa altura em que não havia dinheiro para os ter à mesa durante todo o ano. Continua a fazer os bolos brancos à mão, no mesmo espírito artesanal que recebeu da mãe. A receita leva farinha, uma calda fervida, raspa de limão, canela, ovos e maçã, antes de seguir para o forno de lenha. O segredo, diz, está também no modo de fazer e no tempo certo. “É tudo artesanal. Não há nada adulterado”, sublinha.
O bolo branco da Barrosa é, para a artesã, uma tradição que importa preservar. Ana Castanheiro Silva reconhece que a procura tem aumentado e que, por vezes, o trabalho já se torna pesado. Numa fornada recente, fez oito quilos de massa em dois dias. Continua a fazê-lo para vizinhos, conhecidos e feiras, porque sente que este é um saber que não deve desaparecer. A artesã lamenta que as gerações mais novas tenham vindo a perder interesse por estas práticas, mas admite que ainda possa haver quem pegue na tradição. No seu caso, o saber passou da mãe para a filha, como acontecia com outras mulheres da aldeia.
O artesanato depois da reforma
Para além dos bolos, Ana Castanheiro Silva e o marido, José Silva, dedicam-se à cestaria em vime. A paixão pelo artesanato ganhou força depois da reforma de José, que passou pela agricultura, construção civil, carpintaria e condução de veículos pesados, tendo trabalhado também na Câmara de Benavente. Reformou-se em 2023, antes da idade legal, depois de 51 anos de descontos.
A vontade de fazer cestos vinha de longe. José Silva recorda os tempos em que foi moço de gado e via o moiral fazer os cestos antigos usados no campo. Mais tarde, disse à mulher que, quando se reformasse, havia de tentar aprender o ofício. A reforma trouxe esse tempo e o casal dedicou-se a aperfeiçoar a técnica. Ana Castanheiro Silva quis, no entanto, ir além da cestaria antiga. Procurou aprender novas formas, estudou técnicas na internet, mandou vir vime de Itália e passou horas a experimentar tranças, peças e acabamentos. “Queria fazer cestaria moderna”, explica, referindo que cada peça nasce de uma ideia pensada com calma.
O casal produz cestos de vários tamanhos e utilidades, incluindo peças para lenha e bases para garrafas e copos. José Silva explica que o vime tem de ser escolhido conforme a peça que se pretende fazer, preparado em água e trabalhado com paciência. Uma peça pode levar várias horas a concluir e, admite, o preço de venda nunca paga verdadeiramente o tempo investido.
Ainda assim, o artesanato tornou-se uma ocupação e uma forma de bem-estar. Ana Castanheiro Silva, reformada por motivos de saúde, encontrou no trabalho manual uma ajuda para ultrapassar dificuldades. José Silva também o descreve como uma terapia, porque obriga à concentração e afasta pensamentos negativos. “Como uma pessoa gosta de fazer, vai-se fazendo e está entretido”, diz.


