Cultura | 07-07-2026 11:13

Livro sobre as Relações Luso-Brasileiras e o Ideário Republicano de Luísa Teixeira Barbosa

Livro sobre as Relações Luso-Brasileiras e o Ideário Republicano de Luísa Teixeira Barbosa

Livro sobre o ideário republicano foi lançado em Santarém da autoria de Luísa Teixeira Barbosa, professora e antiga vereadora da câmara municipal de Santarem.

“A Construção da República: O ideário republicano nas relações entre Brasil e Portugal, 1889-1891”, de Luísa Teixeira Barbosa, foi apresentado no Salão Nobre da Câmara Municipal de Santarém na tarde do dia 4 de julho. A obra, resultante da sua dissertação de mestrado defendida com nota máxima na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e uma chancela da Editora Caleidoscópio e com o apoio do Centro República da FCSH-UNL.

O livro teve a presença de professores e estudiosos, entre eles José João Gomes e Martinho Vicente Rodrigues, Diretor do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS), onde se realizou o lançamento. Maria Fernanda Rollo, Diretora do Centro República, partilhou os bastidores da seleção da obra no Programa de Edição de Teses e Dissertações. Enfatizou que o resgate das temáticas do republicanismo e da primeira República é da maior importância para compreender a República e defender o regime democrático. Complementando a perspetiva institucional, Jorge Ferreira, da Editora Caleidoscópio, reiterando o compromisso em colocar no mercado livros que aliem o rigor histórico a um design gráfico de excelência tornando o conhecimento acessível e apelativo para o leitor contemporâneo.

O momento central de análise crítica científica ficou a cargo da Historiadora Ana Paula Pires, que sublinhou o profundo impacto e a relevância científica da investigação. Disse que a historiografia portuguesa contemporânea, das relações Luso-brasileiras, tende a concentrar-se no período Navegações ou na independência do Brasil, negligenciando o fluxo contínuo de relações políticas e intelectuais subsequentes; referiu ainda que a autora operou uma verdadeira "escavação histórica" para preencher este vazio documental.

O Rigor das Fontes e o Conceito de "Brasiliofilia"

Ana Paula Pires enalteceu a arquitetura metodológica do livro, uma dissertação orientada por José Manuel Tengarrinha, alicerçada num levantamento exaustivo de fontes primárias, incluindo jornais diários da época, correspondência privada e discursos parlamentares. Importante foi ainda o destaque dado à originalidade conceptual na criação do termo "Brasiliofilia". Este conceito inovador permite decifrar o sentimento coletivo de entusiasmo que a imprensa republicana manifestava face à revolução brasileira de 1889, funcionando como contraponto ao "antibritanismo" gerado pelo Ultimato de 1890.

Revelações Históricas e Teses Ousadas

A apresentação evidenciou pormenores inéditos trazidos à luz pelo livro, nomeadamente a simbologia da bandeira do 31 de janeiro, provando que o estandarte hasteado no Porto com as cores verde e vermelha e a inscrição "15 de Novembro" (data da Revolução brasileira) constituía uma homenagem direta à revolução brasileira ; uma rutura cronológica, ao demonstrar que a influência brasileira antecede e complementa o impacto do Ultimato Inglês; e a tese polémica de que a principal causa para a Implantação da República em Portugal, a 5 de Outubro de 1910, reside na forte e direta influência dos acontecimentos no Brasil. A oradora destacou ainda o vínculo da autora a Santarém, visível no conhecimento e uso do espólio da Biblioteca Municipal, nomeadamente dos Fundos Braamcamp Freire e Camões.

Gratidão e Memória Histórica

Luísa Teixeira Barbosa partilhou o percurso humano e científico que culminou na publicação. Relembrou o rigoroso quadro metodológico que sustentou a sua tese e destacou a análise de fontes primárias como a imprensa do último quartel do século XIX. A autora fez questão de enaltecer o papel das instituições de Santarém na salvaguarda desta memória, prestando um público agradecimento à Biblioteca Municipal de Santarém.

As Sete Conclusões de um Diálogo Luso-Brasileiro Transatlântico

Apoiada numa projeção visual, a autora sintetizou as sete grandes conclusões da obra ao demonstrar como a Revolução Republicana Brasileira de 1889 operou como um farol moral para o republicanismo em Portugal. Evidenciou que o advento do novo regime no Brasil funcionou como um motor de consolidação doutrinária para os intelectuais republicanos portugueses, tendo as comemorações do Tricentenário de Camões, em 1880, estabelecido o elo fundador de um intercâmbio ideológico florescente entre os dois países. Adicionalmente, clarificou que os jornais republicanos lusos foram o veículo central de filtragem e combate às narrativas monárquicas, enquanto o positivismo e o cientismo moldaram a leitura nacional da experiência brasileira ao associar o novo modelo aos ideais de progresso e modernidade. Esta forte influência transatlântica acelerou a propaganda antimonárquica que culminou na Revolta de 31 de Janeiro de 1891, sustentada por redes como a Maçonaria, que funcionou como ponte essencial no acolhimento de exilados e na circulação de ideias, garantindo que o Brasil se mantivesse como a grande matriz de referência constitucional e de debate político e simbólico até à consolidação da Constituição de 1911 em Portugal.

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