Filarmónica de Alverca quer equilibrar contas e modernizar a oferta cultural
A Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense atravessa uma fase de redefinição interna, entre dificuldades financeiras e a necessidade de renovar gerações. A direcção liderada por Paulo Lopes quer reforçar a estabilidade da colectividade e abrir espaço a novos públicos e dinamizar mais actividades.
A Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense (SFRA) enfrenta actualmente uma dívida acumulada à banca que anda entre os 400 mil e os 500 mil euros, resultado de investimentos realizados ao longo de vários mandatos e de um período particularmente penalizador marcado pela pandemia de Covid-19. Entre os projectos que pesam na tesouraria estão a Casa do Músico e o painel electrónico, ambos considerados estruturantes, mas sem o retorno financeiro esperado.
“É uma carga financeira pesada, acumulada ao longo de anos e de diferentes direcções”, reconhece o actual presidente da SFRA, Paulo Lopes, que iniciou funções em 2025 para um mandato até 2027, mas integra os corpos sociais há cerca de 12 anos. A situação financeira é descrita como um equilíbrio permanente entre receitas e despesas, com a gestão diária a obrigar a decisões sucessivas de prioridade. “Vamos pagando uma coisa, depois aparece outra. É um jogo constante de equilíbrio”, explica, acrescentando que o principal objectivo da direcção passa por estabilizar as contas.
Novos residentes e novos públicos
A SFRA está a apostar na captação de novos públicos, numa tentativa de alterar o paradigma de uma colectividade tradicionalmente associada a faixas etárias mais velhas. Com o crescimento das novas urbanizações em Alverca e a chegada de novos residentes à cidade, a direcção considera essencial dinamizar actividades capazes de atrair pessoas que não conhecem a instituição nem a sua história. O stand-up comedy e espectáculos mais contemporâneos têm vindo a ganhar espaço na programação cultural, enquanto formatos mais tradicionais, como o teatro de revista, perderam alguma expressão junto do público.
Essenciais para a sobrevivência da colectividade continuam a ser os apoios da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e da Junta de Freguesia de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, bem como as receitas geradas pelos eventos organizados ao longo do ano. A SFRA conta com cerca de cinco mil sócios, dos quais aproximadamente três mil são considerados regulares ou praticantes. Paulo Lopes explica que existe uma distinção entre os sócios que frequentam as modalidades e os que mantêm apenas uma ligação associativa à instituição.
A Escola de Música mantém uma actividade regular e continua a captar jovens alunos, sendo considerada uma das áreas estratégicas da colectividade. Ainda assim, o presidente sublinha que “o coração da SFRA” continua a ser a banda filarmónica, actualmente composta por cerca de 40 músicos. Os ensaios realizam-se semanalmente, às sextas-feiras, podendo aumentar de frequência em períodos de maior actividade.
O actual maestro, Nuno Delicado, foi escolhido internamente e, segundo Paulo Lopes, tem desempenhado um papel importante na adaptação da banda aos novos tempos, apostando em repertórios mais modernos e diversificados. “O entendimento desta direcção é que a banda é um investimento. É a cara da nossa instituição”, afirma.
Associativismo mais próximo da população
O modelo tradicional do associativismo está em mudança e exige maior proximidade às novas populações, diz Paulo Lopes, defendendo iniciativas da SFRA na rua e nas escolas e ir ao encontro das pessoas, não esperando que sejam elas a dirigir-se à colectividade.
A SFRA tem quatro funcionários remunerados: uma pessoa na recepção, outra no escritório, outra no quiosque de rua e uma funcionária da limpeza. O bar da sede e a Casa do Músico estão em regime de exploração e a área desportiva/ginásio está concessionada a uma entidade. A banda, a secção cultural, a natação e o grupo de cavaquinhos estão entregues à SFRA, que disponibiliza aulas de pilates, dança, futsal e, brevemente, dança K-pop. Mensalmente é realizado um espectáculo de teatro e a sala é alugada para as escolas e eventos da comunidade ucraniana, por exemplo.
A própria dimensão do auditório é um factor determinante na programação cultural. Com 400 lugares, muitos espectáculos acabam por parecer menos preenchidos, mesmo quando têm assistência razoável. Essa realidade levou a direcção a optar, em alguns casos, por formatos alternativos em espaços mais pequenos dentro da própria instituição, como o bar.
Quando imagina a SFRA daqui a uma década, Paulo Lopes prevê novos públicos e novas ofertas, numa constante modernização, mas mantendo a banda filarmónica, que é um património de Alverca. “Temos 152 anos, uma dimensão considerável, mas temos que aparecer e dar-nos a conhecer à sociedade”, defende.
“O João Paulo era a SFRA e a SFRA era o João Paulo”
A actual direcção da SFRA reconhece o papel determinante que o ex-presidente João Paulo teve no crescimento da colectividade, mas admite que a centralização da gestão criou dificuldades na transição para a nova liderança. “O João Paulo, de quem sou amigo, foi uma figura muito relevante aqui na instituição. Pegou na SFRA quando estava basicamente falida e conseguiu, aos poucos e com a sua experiência, transformá-la naquilo que era”, afirma Paulo Lopes.
Apesar do reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, o dirigente considera que a gestão estava excessivamente concentrada numa única pessoa. “Ele era a SFRA e a SFRA era ele”, resume. Na sua opinião, a imagem da colectividade ficou demasiado associada a uma única figura, não existindo uma verdadeira segunda linha de dirigentes visível para os sócios e para a comunidade. “Tirando o João Paulo, poucas pessoas sabiam quem estava na SFRA”, observa.
A actual direcção procurou alterar esse modelo, distribuindo responsabilidades pelos vários elementos dos corpos sociais. No entanto, o presidente reconhece que o problema não é exclusivo da colectividade e resulta também das dificuldades em encontrar voluntários disponíveis para assumir compromissos associativos. “Quando não conseguimos arranjar alguém para desempenhar determinada função, a tendência é quem está à frente acabar por assumir tudo. Foi um bocadinho isso que sentimos aqui”, diz.


