Azulejos cobiçados por ladrões e tesouros romanos dão vida a exposição sobre património em VFX
Celeiro da Patriarcal é palco, até Outubro, de uma exposição gratuita onde são mostrados alguns dos objectos arqueológicos mais valiosos do concelho de Vila Franca de Xira, incluindo raras moedas romanas que saem do museu pela primeira vez.
Uma ânfora romana resgatada por pescadores avieiros na Póvoa de Santa Iria, um painel de azulejos históricos cobiçado por ladrões e uma estátua decapitada que é a única sobrevivente de um conjunto de quatro esculturas do Jardim Constantino Palha. Estas são algumas das peças que ajudam a contar séculos de património no concelho de Vila Franca de Xira e que podem ser visitadas na exposição “Proteger a Memória - Vila Franca de Xira e o Património Arqueológico e Construído”, em exibição no Celeiro da Patriarcal até Outubro.
Concebida em conjunto pelos sectores de Arqueologia e de Património Histórico do município, a mostra nasceu inicialmente para integrar as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, mas rapidamente ganhou outra dimensão. “Pensámos inicialmente realizar a exposição no núcleo do Mártir Santo, mas depois, no processo de investigação, percebemos que havia muito para falar e muito para expor. Felizmente, Vila Franca de Xira tem muitas peças de enorme valor e acabámos por perceber que esta exposição merecia ser independente e ficar na Patriarcal”, explicam a O MIRANTE as arqueólogas Laura Rosado e Sara Ferreira.
No Celeiro da Patriarcal foi possível alargar a investigação e apresentar um retrato mais abrangente do trabalho desenvolvido pelo município na protecção do património. Mais do que apresentar objectos antigos, a exposição procura mostrar todo o trabalho desenvolvido pelos diferentes serviços municipais, desde a arqueologia e o património histórico até à conservação e restauro e ao serviço educativo. “A actividade arqueológica não finda na escavação”, sublinham as responsáveis, seguindo-se um longo trabalho de investigação, conservação, inventariação e divulgação junto da população.
Denários romanos são destaque
Entre as peças de maior valor encontram-se vários denários (moedas) romanos provenientes do Monte dos Castelinhos, considerado o grande ex-líbris arqueológico do concelho. Mas são as histórias humanas associadas a alguns objectos que despertam maior curiosidade. Uma das mais emblemáticas começou nos anos 90, quando dois pescadores, José Júlio e Palmira Fernandes, encontraram uma ânfora romana inteira durante uma jornada de pesca de arrasto na Póvoa de Santa Iria. Em vez de a guardarem decidiram entregá-la ao museu municipal. O gesto permitiu preservar uma peça rara que hoje integra a exposição e que poderá indiciar a existência de um naufrágio romano naquela zona do Tejo.
Outra das histórias mais curiosas está relacionada com os azulejos da Quinta do Paraíso, em Vila Franca de Xira. Quando os técnicos municipais chegaram ao local para iniciar o processo autorizado de recuperação dos painéis cerâmicos, encontraram ladrões a tentar furtá-los. “Foram literalmente apanhados com a boca na botija”, recordam as arqueólogas. A rápida intervenção dos técnicos municipais, dos proprietários da quinta e da Polícia Judiciária permitiu evitar o roubo, transformando o episódio num exemplo da importância da sensibilização para a defesa do património, mais tarde reforçada através do projecto SOS Azulejo.
Também a estátua da Primavera desperta a atenção dos visitantes. Integrava originalmente um conjunto escultórico representando as quatro estações, instalado no Jardim Constantino Palha. As restantes esculturas foram roubadas e vandalizadas. A única recuperada chegou já sem cabeça, tendo sido posteriormente conservada e restaurada, permanecendo como testemunho das perdas que o património também sofre ao longo do tempo.
A exposição procura igualmente desmontar a ideia de que Vila Franca de Xira possui pouca riqueza arqueológica. Pelo contrário, dizem as arqueólogas, o território foi, desde a antiguidade, um importante ponto de passagem terrestre e fluvial, ligando Lisboa ao interior através do Tejo e da antiga estrada romana para Santarém. Os vestígios encontrados revelam contactos comerciais com o mundo fenício, comprovados por cerâmicas descobertas no povoado de Santa Sofia, testemunhando relações com o Mediterrâneo muito antes da época romana. “Desde o tempo dos romanos que Vila Franca é uma zona muito movimentada”, confirmam as arqueólogas.


