Cultura | 28-07-2026 15:00

No Carqueijal o santo pede cerveja, há os pães do senhor Fernando e uma comunidade que parece uma seita

No Carqueijal o santo pede cerveja, há os pães do senhor Fernando e uma comunidade que parece uma seita
Marta Nunes e Bruno Gomes - foto O MIRANTE

As Festas do Carqueijal são a alma da aldeia. Juntam jovens e idosos, famílias inteiras e voluntários que vivem meses em função de três dias de festa. No ar mistura-se o cheiro do frango assado, do pão com chouriço acabado de sair do forno e de uma devoção que também sabe rir de si própria.

O Carqueijal, lugar da freguesia de Olalhas, no concelho de Tomar, voltou a vestir-se de festa em honra de São João Baptista. A celebração aproxima-se das 50 edições e nasceu quando a igreja da aldeia ainda estava em construção, erguida em terreno oferecido por um habitante em homenagem ao santo. Abílio Oliveira é um dos poucos homens ainda vivos que participaram nesses trabalhos. Não sabe ao certo quem doou o terreno, mas lembra-se bem dos dias em que a igreja começou a ganhar forma. “As festas começaram quando ainda andávamos nós aí sem camisa a construir a igreja”, recorda a O MIRANTE.
Organizar a festa é uma das principais actividades da Associação Cultural e Recreativa do Carqueijal. Ao longo do ano, dezenas de voluntários preparam o recinto, tratam dos artistas, recolhem donativos, fazem decorações e garantem que nada falha. Muitos trabalham em Lisboa e alguns ocupam cargos de responsabilidade, mas regressam à aldeia para dar o seu contributo. Daniel Ferreira, presidente da associação, brinca dizendo que os habitantes do Carqueijal parecem pertencer a uma seita. Não por se fecharem ao exterior, mas pela forma intensa como vivem a festa e pela união que existe entre todos. Há voluntários que, nos três meses anteriores ao evento, quase deixam de ter vida própria. Daniel conta mesmo que há quem não consiga visitar a mãe, por viver longe, porque todos os fins-de-semana são ocupados com os preparativos.
A comissão percorre aldeias próximas e outras mais distantes, porta a porta, a divulgar o programa e a recolher oferendas. É um trabalho paciente que permite transformar uma pequena festa numa celebração cada vez maior. “E o Carqueijal, assim, de uma coisinha pequena, vai-se fazendo grande, muito grande aqui”, afirma Daniel Ferreira. A dedicação percebe-se também nas decorações. Crianças, jovens, adultos e idosos ajudam a preparar cada pormenor. Uma das decorações mais marcantes dos últimos anos foi uma enorme manta feita com rosetas de croché. Este ano, o recinto ganhou fitas brancas pintadas à mão ou com spray. Cada pessoa escolheu a técnica e deixou a sua marca.
Também a t-shirt oficial nasceu dentro da comunidade. Marta Nunes e Bruno Gomes, ambos com formação em design gráfico, escolheram uma imagem de São João existente na igreja e deram-lhe um ar irreverente: óculos de sol e uma coluna de som aos ombros. A ideia foi aproximar a tradição dos mais jovens e mostrar que a fé não tem de ser vivida com solenidade permanente. Em anos anteriores, a imagem do santo foi acompanhada pela expressão “psst”, que tanto podia ser entendida como um chamamento como um pedido feito ao balcão. Com o dedo em forma de L, São João parecia estar a pedir uma imperial. Este ano não há frase, mas o humor mantém-se.

“É loucura o peditório no domingo de manhã”
O sábado continua a ser o dia mais concorrido, sobretudo entre os jovens. Daniel Ferreira não consegue contabilizar quantas pessoas passam pelo recinto, mas garante que são muitas mais do que as cerca de 250 registadas na sexta-feira. Este ano houve ainda uma novidade com a assinatura do senhor Fernando Faustino: pão com chouriço preparado e cozido no momento. Electricista de profissão, Fernando sempre gostou de fazer pão. Tinha um forno em casa, onde cozia regularmente para vender, mas a tempestade Kristin destruiu-o e ainda não conseguiu repará-lo. Na festa, porém, voltou a pôr as mãos na massa e a recuperar um saber que o temporal interrompeu. Entre a música, o cheiro do frango assado, o forno a lenha e um São João de óculos escuros, o Carqueijal voltou a mostrar que uma aldeia não se mede pelo número de habitantes, mas pela força com que se une.

Fernando Faustino confecciona pão com chouriço - foto O MIRANTE
Daniel Ferreira - foto O MIRANTE

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal