Cultura | 04-08-2026 21:00

Folclore atravessa fronteiras em Alcanena mas futuro dos ranchos depende da força do associativismo

Folclore atravessa fronteiras em Alcanena mas futuro dos ranchos depende da força do associativismo
Festival reuniu centenas de participantes e público numa celebração da diversidade cultural e da identidade dos povos - foto O MIRANTE

Grupos de Portugal, Lituânia, Bósnia e Herzegovina e Colômbia deram cor e movimento à Praça 8 de Maio, no 37.º Festival Internacional de Folclore de Alcanena. Por detrás da festa, dos trajes e das danças, permanece a preocupação com a falta de jovens e o desgaste de quem luta para que as tradições não desapareçam.

Os trajes coloridos, a música e as danças de diferentes países transformaram a Praça 8 de Maio, em Alcanena, num ponto de encontro entre culturas. Na noite de 23 de Julho, o folclore falou várias línguas. A 37.ª edição do Festival Internacional de Folclore de Alcanena reuniu grupos portugueses e estrangeiros, levando ao palco ritmos, costumes e formas distintas de representar a história de cada povo. Este ano, o papel de anfitrião coube ao Rancho Folclórico da Casa do Povo de Espinheiro, grupo com 52 elementos e uma longa ligação à vida cultural da freguesia.
Em cada edição, um dos três ranchos folclóricos do concelho assume a recepção dos participantes. Para Alexandre Ventura, ensaiador do rancho e director da Casa do Povo de Espinheiro, estes encontros são momentos de descoberta, de partilha de experiências e de contacto com tradições que, embora nascidas em territórios distantes, têm em comum o esforço de preservar a memória colectiva. O programa contou com as actuações do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Espinheiro e do Rancho Regional da Casa do Povo de Ílhavo. Do estrangeiro chegaram o grupo lituano Folklore Ensemble, a Folklore Society KUD, da Bósnia e Herzegovina, e o Grupo Folclórico Escuela de Danza de Cajicá, da Colômbia. A diversidade de ritmos e movimentos mostrou como o folclore ultrapassa fronteiras. Cada grupo levou a Alcanena um pouco da sua história, através das roupas, da música, da dança e da forma como representa o quotidiano e os costumes das suas comunidades.
Um dos momentos mais ligados às tradições locais foi protagonizado pelo Grupo do Jogo do Pau, subgrupo do rancho anfitrião. A demonstração recuperou uma prática que Alexandre Ventura considera de grande importância etnográfica e que continua a ser transmitida como parte da identidade cultural da região.

Festa esconde dificuldades
Por detrás da animação, das saias rodadas e da música das tocatas, há uma realidade menos visível. Manter um rancho folclórico em actividade exige dinheiro, disponibilidade e uma dedicação que nem sempre é reconhecida. Alexandre Ventura fala das despesas com a confecção e reparação dos trajes, dos custos dos transportes e do pagamento aos músicos que integram a tocata. A estes encargos juntam-se duas dificuldades cada vez mais sentidas nas aldeias: a diminuição da população activa e o desgaste de quem pertence simultaneamente a várias associações. São frequentemente as mesmas pessoas que asseguram diferentes colectividades, organizam actividades, acompanham ensaios e garantem o funcionamento das estruturas locais. O tempo dedicado ao associativismo acaba por ser retirado à vida pessoal e familiar, provocando cansaço e desmotivação. Ainda assim, Alexandre Ventura garante que o esforço ganha sentido quando se percebe que está em causa a preservação de uma tradição. O maior receio, porém, não está apenas nas contas ou na falta de tempo. Está na dificuldade de atrair jovens. No Rancho Folclórico da Casa do Povo de Espinheiro ainda existem alguns jovens, entre os quais a sua própria filha, mas o número não é suficiente para assegurar a continuidade do grupo nas próximas duas ou três décadas.
Alexandre começou a interessar-se pelos ranchos aos 10 anos, numa época em que os grupos “estavam em alta” na aldeia. Não entrou de imediato porque os pais eram emigrantes em França e a família apenas regressava a Portugal durante o Verão. Aos 16 anos voltou definitivamente para Espinheiro e integrou o rancho. Desde então passou por quase todas as funções: foi cantor, apresentador, ensaiador e, mais tarde, bailador. Aos 62 anos continua ligado ao grupo, carregando consigo décadas de histórias, actuações e trabalho associativo.

Festival reuniu centenas de participantes e público numa celebração da diversidade cultural e da identidade dos povos - foto O MIRANTE

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