Liberdade navega entre a memória do Tejo e a vida dos mouchões
A bordo de um varino construído em 1945, passageiros partiram de Vila Franca de Xira para conhecer a Reserva Natural do Estuário do Tejo através de uma perspectiva que só o rio permite.
O varino Liberdade deixou o cais da marina de Vila Franca de Xira na manhã de domingo, 26 de Julho, para uma viagem em redor dos mouchões da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Entre histórias de antigas rotas comerciais, aves aquáticas e margens moldadas pelas marés, o passeio mostrou que navegar neste troço do rio é também percorrer uma parte da memória da região.
De proa redonda, fundo chato e 18 metros de comprimento, a embarcação avançou por águas rasas, onde os varinos conseguem navegar devido às características da sua construção, o que permite aproximar o barco de zonas da reserva que dificilmente podem ser observadas a partir de terra, explicou o mestre Flávio Xavier. “Há lugares a que só de barco se consegue chegar”, afirmou, destacando a perspectiva sobre Vila Franca de Xira, a Quinta de Subserra e as áreas frequentadas pelas aves.
Flávio Xavier considera natural que o rio e os mouchões se transformem ao longo do tempo. Há zonas onde anteriormente se navegava com maior folga e que agora exigem um cálculo mais rigoroso da maré e da altura da água, assim como uma maior atenção às redes de pesca. Em sentido inverso, tem observado uma presença mais regular de aves na reserva, mesmo fora das épocas em que eram habitualmente vistas em maior número. “O facto de termos uma reserva e de toda a parte da lezíria ter pouco impacto humano faz com que as aves se sintam seguras para nidificar e permanecer durante mais tempo”, explica. Flamingos, garças, patos, alfaiates, maçaricos e pilritos estão entre as espécies que podem ser observadas nos mouchões, onde procuram alimento nas vasas entre marés e repousam nos habitats protegidos.
Com 43 anos, natural do Funchal, Flávio Xavier chegou a Vila Franca de Xira há seis anos. Trabalhou durante cerca de uma década numa empresa marítimo-turística da Madeira, primeiro como marinheiro e depois como mestre, em viagens dedicadas ao avistamento de cetáceos. Quando entrou ao serviço do município, conhecia pouco o Tejo e teve de aprender a lê-lo. Parte desse conhecimento foi-lhe transmitido pelo anterior mestre do Liberdade, Luís Godinho.
Flávio Xavier fala da embarcação como se fosse um familiar. “Nem sei se adquiri um filho ou um pai”, confessou. Os varinos são conhecidos entre os homens do rio como barcos “teimosos”, por não terem quilha e serem difíceis de manobrar. Com o tempo, acrescentou, o mestre aprende as “manhas” do barco e cria com ele uma relação própria.
Construído em Rio de Moinhos e recuperado em VFX
Preservar o Liberdade não depende apenas da manutenção da embarcação, defende Flávio Xavier. É necessário garantir que existem pessoas preparadas e interessadas em continuar a navegá-la. Foi com esse objectivo que nasceu o projecto “Marinheiro por um Dia”, dirigido aos mais jovens, para lhes proporcionar contacto com embarcações tradicionais e, eventualmente, despertar futuras vocações.
A história do barco foi explicada aos passageiros por Ricardo Pedro. Construído em 1945, em Rio de Moinhos, no concelho de Abrantes, o então Campino transportava mercadorias entre o interior e Lisboa. Ao contrário das fragatas, os varinos chegavam com maior facilidade à zona de Abrantes.
A abertura da Ponte Marechal Carmona, em 1951, a construção de barragens e, mais tarde, a inauguração da actual Ponte 25 de Abril, em 1966, contribuíram para a perda de importância do transporte fluvial. Já com o nome Rio Zuari, o barco transportou lixo de Lisboa para a margem sul e, posteriormente, sal no rio Sado.
Quando estas embarcações se tornaram obsoletas, muitas foram incendiadas, transformadas em plataformas ou afundadas para proteger as margens contra a força da corrente. Foi esse o destino do actual Liberdade, mais tarde adquirido e recuperado pela Câmara de Vila Franca de Xira. Regressou ao serviço da população em 25 de Abril de 1988, como núcleo museológico.
O nome recorda uma canoa chamada Liberdade, onde, entre 1939 e 1942, pessoas ligadas à luta pela liberdade se reuniam em encontros que, sob a aparência de excursões no Tejo, eram tertúlias políticas associadas ao movimento neo-realista português.
Entre os passageiros, Telmo Marques, de Alverca, participou no passeio em família, depois de ouvir a recomendação do sogro. Titular de licença de patrão de costa e habituado a navegar no rio, nunca tinha percorrido aquela zona de barco. Para o participante, proteger a reserva exige não apenas regras, mas fiscalização e cooperação entre as entidades responsáveis.
Rui Barros, residente em Samora Correia, juntou-se à viagem com familiares e amigos de Lisboa. No Tejo encontra, acima de tudo, tranquilidade. “Gosto da paz que isto transmite”, resumiu. Mas lembrou também os problemas do assoreamento, dos resíduos e da gestão das descargas das barragens, defendendo que o cuidado com o rio “já devia existir há muito tempo”.


