As duas mulheres que cosem sonhos em Ourém
Lurdes Freire e Sandra Gonçalves somam cerca de 80 anos de experiência na A Bela Noiva, em Ourém. No Dia do Alfaiate e da Modista, que se assinala a 23 de Julho, O MIRANTE acompanhou o trabalho de duas profissionais que dedicaram grande parte da vida à criação de vestidos pensados para um dos dias mais marcantes de muitas mulheres.
Um vestido de noiva pode demorar seis, oito, dez, 12 ou até 18 horas a ganhar forma. Há modelos simples e discretos, outros cobertos de rendas, bordados e aplicações, mas todos exigem precisão, paciência e muitas horas de trabalho especializado. Por detrás de cada peça estão mãos experientes, habituadas a transformar tecidos, desenhos e medidas em vestidos únicos. Lurdes Freire e Sandra Gonçalves são duas das colaboradoras mais antigas da A Bela Noiva, em Ourém. Juntas, somam cerca de oito décadas de experiência e representam uma geração de modistas para quem a profissão nunca foi apenas uma forma de ganhar a vida.
Lurdes Freire entrou na empresa em 1987, depois de deixar o trabalho na agricultura. Não imaginava que o seu futuro passaria pela confecção de vestidos de noiva, mas foi nesse mundo que acabou por construir uma carreira. Começou por trabalhar em roupa de criança e, mais tarde, passou a dedicar-se exclusivamente aos vestidos de noiva. Ao longo dos anos aprendeu a acompanhar todas as etapas da confecção, do corte aos acabamentos feitos à mão. “Quando pegamos num vestido, é até ao fim”, afirma, explicando que a peça é acompanhada de forma contínua e com o mesmo cuidado desde o primeiro corte até ao último ponto. Para a costureira, não há uma fase mais simples ou menos importante. Um erro numa etapa pode comprometer todo o trabalho realizado depois. “É tudo exigente. O corte, os tecidos, a confecção. Tudo tem de correr bem”, sublinha. A maior recompensa chega no momento em que a noiva experimenta o vestido. Apesar dos muitos anos de experiência, Lurdes Freire admite que continua a sentir algum nervosismo antes de cada prova.
Um corte errado pode comprometer tudo
Sandra Gonçalves também chegou à A Bela Noiva muito jovem. Tinha apenas 14 ou 15 anos quando entrou para aprender a profissão e nunca mais saiu. Ao fim de 38 anos de casa, é responsável pela modelagem e pelo corte dos vestidos, uma das fases mais delicadas de todo o processo. É no corte que o vestido começa verdadeiramente a nascer e onde há pouca margem para falhar. “Se o corte não estiver certo, o vestido nunca vai dar certo”, explica. Sandra Gonçalves considera que os pedidos de alteração feitos pelas clientes permitem perceber um pouco da personalidade de cada noiva. Umas procuram vestidos mais simples, leves e discretos. Outras preferem modelos mais elaborados, com saias volumosas, rendas, mangas trabalhadas ou decotes personalizados.
Lurdes Freire e Sandra Gonçalves concordam que o trabalho das modistas continua longe de ser devidamente reconhecido. Além das muitas horas necessárias para produzir cada vestido, são precisos anos de aprendizagem para dominar os tecidos, os cortes, os moldes e os acabamentos. Lurdes Freire lamenta sobretudo a falta de jovens disponíveis para aprender o ofício e considera que seriam necessários mais incentivos para assegurar a continuidade da profissão. “Precisamos de costureiras e quase ninguém quer aprender”, afirma. A mesma preocupação é partilhada por Sandra Gonçalves, que acredita que muitas pessoas desconhecem o verdadeiro valor do trabalho artesanal. A modelista recorda que um vestido de qualidade exige tempo, conhecimento e mão-de-obra especializada, num mercado cada vez mais pressionado por produtos produzidos em massa e vendidos a preços difíceis de acompanhar por empresas que apostam na confecção própria. Para as duas profissionais, a concorrência de peças produzidas em grande escala não ameaça apenas as empresas nacionais. Coloca também em risco um saber que foi sendo transmitido entre gerações e que exige dedicação, prática e gosto pela profissão.
Apesar dos desafios, ambas continuam a falar do trabalho com paixão. Sandra Gonçalves resume a profissão numa única palavra: “Formidável”. Quando se gosta verdadeiramente do que se faz, garante, trabalhar deixa de ser um sacrifício. “É bom levantar-me de manhã e vir trabalhar”, afirma.


