Bolo Branco e artesanato deram nova vida às tradições da Barrosa
Primeira Feira Agrícola das Tradições e do Bolo Branco levou centenas de pessoas à Barrosa, entre 24 e 26 de Julho, e transformou a aldeia num ponto de encontro entre gerações. O certame mostrou saberes antigos, do fabrico do bolo em forno de lenha ao trabalho em cortiça e ao empalhamento de garrafas, mas deixou também um alerta: sem jovens dispostos a aprender, parte deste património pode desaparecer.
Durante três dias, o cheiro do forno a lenha, o movimento dos artesãos e as conversas em redor das bancas devolveram à Barrosa memórias de outros tempos. A primeira edição da Feira Agrícola das Tradições e do Bolo Branco encheu a aldeia de residentes e visitantes, dando palco às especialidades, aos ofícios e às histórias que continuam a definir a identidade da comunidade. No centro da feira esteve o Bolo Branco, uma receita que atravessa gerações e que, durante muitos anos, acompanhou alguns dos momentos mais importantes das famílias da Barrosa. O bolo começou por ser oferecido pelos noivos aos padrinhos de casamento e acabou também por se tornar presença habitual nas mesas de Natal. A receita não é segredo, mas exige tempo, experiência e uma aprendizagem feita sobretudo pela observação dos mais velhos.
Silvana Vieira, Telma Martins e Ana Silva foram três das pasteleiras que, ao longo do certame, mostraram aos visitantes como nasce esta especialidade. Silvana Vieira faz o bolo há sete anos, mas conhece-lhe os gestos desde criança. Aprendeu a receita ao observar familiares mais velhos, uma tradição que já vinha dos bisavós e que era repetida todos os anos por altura do Natal. Apesar de continuar a confeccionar o bolo, Silvana teme que a transmissão do saber seja interrompida. “Existem muito menos pessoas a fazer este bolo e a malta mais nova já não se quer meter nisto. Dá muito trabalho”, afirmou a O MIRANTE. Telma Martins dedica-se ao Bolo Branco há dois anos e partilha uma história semelhante. Aprendeu com a mãe, também durante as preparações natalícias, e actualmente faz o bolo todas as semanas. A receita pouco mudou ao longo do tempo, embora tenha sofrido uma adaptação nos ingredientes. “A única diferença é que antigamente não havia margarina, havia banha. A banha é a gordura do porco que se derrete, mas agora fazemos com margarina”, explicou. O verdadeiro segredo, acrescentou, está no modo de preparação. “Tem de ser num forno a lenha, não pode ser num forno normal. É um bolo muito trabalhado, dá imenso trabalho e ocupa muito tempo. É amassado à mão, com os nós dos dedos, e não com máquinas.”
Já Ana Silva começou a vender bolos há cerca de três anos, quando o marido, José Silva, obteve a licença de artesão. Desde então, o casal marca presença em várias feiras: ele com as cestas que produz e ela com os bolos. Ana acredita que o Bolo Branco vai continuar a passar de geração em geração, mas mostra-se menos optimista em relação a outros ofícios tradicionais. “O artesanato pode mesmo desaparecer. Dá muito trabalho e os jovens não querem saber”, lamentou.
A feira não viveu apenas do Bolo Branco. Octávio Correia mostrou o trabalho de encordoamento e empalhamento de garrafas, uma arte que aprendeu com um conhecido e que foi aperfeiçoando ao longo dos anos. A paixão pelo ofício mantém-se, mas também ele olha com preocupação para o futuro, por não encontrar jovens interessados em aprender. Elsa Arsénio levou à Barrosa peças feitas em cortiça, todas diferentes e nascidas da sua imaginação. Para a artesã, a feira representou uma oportunidade para dar visibilidade a trabalhos que muitas vezes permanecem longe do grande público. A iniciativa, defendeu, pode ajudar os artesãos a mostrarem o que fazem e a despertar curiosidade junto de novos visitantes.
Nelson Lúcio, presidente da Assembleia de Freguesia da Barrosa, explicou a O MIRANTE que a divulgação do Bolo Branco foi uma das principais razões para a realização do certame. “É uma tradição da terra com muitos anos, mas nunca teve tanta divulgação como está a ter agora. Tínhamos feito essa promessa e quisemos criar esta feira”, afirmou. Ao contrário de alguns dos participantes, Nelson Lúcio acredita que o futuro do bolo está assegurado. “Da mesma maneira que hoje existem senhoras de 30 ou 40 anos a fazê-lo, no futuro vão continuar a aparecer pessoas com vontade de aprender”, sustentou. A estreia superou as expectativas da organização. Os artesãos elogiaram a logística e a disposição do recinto, enquanto a presença de muitos visitantes de fora da aldeia confirmou o potencial da iniciativa. O objectivo passa agora por aproveitar o entusiasmo gerado pela primeira edição e preparar um certame maior em 2027.


