Cultura | 11-08-2026 18:00

Casa do Povo de Samora Correia quer continuar a ser “a Suíça do concelho de Benavente”

Casa do Povo de Samora Correia quer continuar a ser “a Suíça do concelho de Benavente”
João Gaudêncio Gomes continua à frente da Casa do Povo de Samora Correia. Aos 85 anos promete continuar até a saúde permitir - foto O MIRANTE

João Gaudêncio Gomes foi reeleito presidente da Casa do Povo de Samora Correia, instituição que já acolheu serviços de saúde, cinema, televisão, futebol e bailes e que procura agora reforçar a vocação social e levar novas actividades para o seu salão.

A Casa do Povo de Samora Correia elegeu novos órgãos sociais mas manteve na presidência João Gaudêncio Gomes, dirigente ligado à instituição desde 1985 e testemunha de uma transformação que levou aquele espaço de centro da assistência social e da vida comunitária da freguesia a casa aberta a associações, actividades e reuniões de diferentes áreas.
“A Casa do Povo é a Suíça do concelho”, afirma João Gaudêncio Gomes, recorrendo à neutralidade do país europeu para explicar a posição assumida pela colectividade. Quando um partido político com representação na assembleia pretende realizar uma reunião, seja de esquerda ou de direita, encontra ali um espaço disponível, desde que a data esteja livre. A mesma abertura estende-se às colectividades locais, que podem utilizar as instalações quando necessitam de reunir ou têm obras nas respectivas sedes. “Alguém que queira utilizar é marcar a data. Se estiver disponível, sim senhor”, resume o presidente.
A expressão escolhida por João Gaudêncio Gomes define o presente de uma casa que, embora já não desempenhe as funções de outros tempos, continua com movimento. A Universidade Sénior utiliza o edifício para a secção de ioga, o grupo de sevilhanas Alma Flamenca ensaia no salão e, através de um protocolo com a Fundação Padre Tobias, ali funciona o Serviço de Atendimento Social do concelho.
A Rádio Íris também permanece instalada no terreno da Casa do Povo, numa ligação que remonta ao período em que a estação precisava de uma sede e de um contrato de arrendamento para obter o alvará. João Gaudêncio Gomes recorda que a decisão não reuniu inicialmente o apoio de toda a direcção, mas acabou por avançar com o seu aval e do tesoureiro. “Não gosto de falar muito acerca destas coisas, mas a Rádio Íris existe porque houve esse passo de nós os dois”, afirma.
Antes do 25 de Abril, as casas do povo desempenhavam funções que João Gaudêncio Gomes compara às da Segurança Social. A instituição de Samora Correia tinha posto médico, apoiava as famílias rurais mais pobres nos períodos de chuva, quando não havia trabalho, e recebia as contribuições dos lavradores e dos trabalhadores beneficiários. Era também um dos principais pontos de encontro da população. Antes da chegada da electricidade a Samora Correia, em 1954, os filmes eram projectados com recurso a um gerador. Mais tarde, aos sábados, as pessoas reuniam-se no salão para ver televisão.
A Casa do Povo teve ainda rancho folclórico e uma equipa de futebol que competia através da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, actual INATEL. Ali se preparavam igualmente marchas dos Santos Populares e grupos para o Carnaval. “A Casa do Povo era o coração. Aqui fazia-se muita coisa”, recorda o dirigente.

A revolução trouxe mudanças
A estrutura mudou depois do 25 de Abril, com nova legislação e a progressiva transferência de algumas das competências sociais para outros organismos. Foi nesse período de adaptação que João Gaudêncio Gomes, contabilista certificado e proprietário de um escritório de contabilidade, se aproximou da instituição. Em 1985, deslocou-se à Casa do Povo para pagar contribuições da Segurança Social relativas aos seus clientes e acabou envolvido na gestão da colectividade. Entre 1985 e 1990, a instituição foi dirigida por uma comissão administrativa. Quando a legislação obrigou a encontrar uma direcção, João Gaudêncio Gomes procurou pessoas e alertou para o risco de Samora Correia perder o controlo do edifício. “Expliquei às pessoas o que ia suceder se nada fosse feito. Sendo este edifício de Samora Correia, não queríamos perder a Casa do Povo”, conta.
A continuidade da actividade é, segundo o presidente, essencial para que a instituição se mantenha nas mãos dos samorenses e não passe para a esfera da Confederação das Casas do Povo, sediada em Tábua. Ao longo das últimas décadas, o edifício foi sendo recuperado. João Gaudêncio Gomes recorda o acordo estabelecido, na década de 1990, com o então presidente da Câmara de Benavente, António José Ganhão, que envolveu o terreno do antigo campo de futebol, junto ao actual centro de saúde. A autarquia construiu o Campo da Murteira e foram realizadas intervenções na cobertura e nas janelas da Casa do Povo. A instituição não recebe, segundo o presidente, financiamento regular da Câmara de Benavente.
A actividade dos tradicionais bailaricos também permitiu acumular algumas receitas, mas foi perdendo público. Muitos dos frequentadores morreram, os mais novos não aderiram e o aumento dos combustíveis fez subir os valores cobrados pelos músicos. Actualmente, a Casa do Povo tem entre 70 e 80 associados e obtém algumas receitas através de alugueres ocasionais do salão, incluindo para festas particulares. A falta de dinheiro continua, contudo, a condicionar os projectos.

João Gaudêncio Gomes: “um pronto-socorro” ao serviço de Samora Correia

Natural de Samora Correia, onde nasceu em 1940, João Gaudêncio Falua Gomes construiu um percurso marcado pela contabilidade, pelo associativismo, pelo futebol e pelo envolvimento na vida da terra. Aos 85 anos, continua a presidir à Casa do Povo, instituição à qual está ligado desde 1985. Viveu sempre em Samora Correia, embora tenha trabalhado durante cerca de 12 anos em Lisboa. Depois do serviço militar, passou pela Manutenção Militar e por uma empresa de navegação, antes de regressar à terra natal para trabalhar nos Veículos Motorizados.
Estudou já em adulto e tornou-se contabilista certificado. Em 1978, iniciou actividade por conta própria, com uma empresa de contabilidade que manteve até 2014. O associativismo acompanhou-o durante grande parte da vida. Além da Casa do Povo, esteve ligado à Sociedade Filarmónica União Samorense e ao Grupo Desportivo de Samora Correia. Fez também parte dos órgãos sociais da Fundação Padre Tobias. Era presidente da direcção da filarmónica quando ocorreu o 25 de Abril de 1974, período que recorda como conturbado e durante o qual defendeu que não deveria haver divisões entre pessoas da mesma terra.
Também o futebol ocupou um lugar importante no seu percurso. Depois do serviço militar, concluiu um curso de treinador da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho e orientou a equipa da Casa do Povo, com a qual se sagrou campeão de Santarém e disputou uma final frente à Central de Cervejas.
Enquanto trabalhava em Lisboa, treinou ainda a equipa dos trabalhadores civis da Manutenção Militar, conquistando um campeonato na capital. Mais tarde, numa fase difícil do Grupo Desportivo de Samora Correia, foi chamado para assumir a equipa principal. “Era um verdadeiro pronto-socorro”, recorda. Nessa época, conseguiu evitar a descida de divisão e conduziu uma equipa formada à pressa até ao meio da tabela. Trabalhou também com os juniores e deu continuidade a um projecto iniciado pelo professor Reis Vaz, acompanhando jogadores desde os iniciados até ao escalão júnior.
Antes do 25 de Abril, integrou igualmente a Junta de Freguesia de Samora Correia. Inicialmente recusou o convite, mas acabou nomeado pelo governador civil de Santarém.
A música é outra das suas ligações à comunidade. Tocou bombo durante cerca de 10 anos na banda filarmónica, onde foi também dirigente, e afirma ter ajudado jovens músicos que prosseguiram estudos na Escola Profissional Metropolitana. João Gaudêncio Gomes sofre de diabetes, mas garante que continuará à frente da Casa do Povo enquanto a saúde permitir. “Quem corre por gosto não cansa. Gosto da minha terra e gosto de resolver as coisas de Samora Correia, dentro daquilo em que posso ajudar”, afirma.

Manter vocação social e procurar novas respostas

A nova direcção pretende manter a vocação social da instituição, sem competir com as actividades já desenvolvidas por outras colectividades de Samora Correia. Na vertente cultural, o presidente admite a realização de espectáculos de fado e de outras iniciativas de entretenimento no salão. O presidente João Gaudêncio Gomes e o vice-presidente, Pedro Galrito, estão também a analisar o enquadramento legal das casas do povo, que lhes atribui o estatuto de utilidade pública e as aproxima das instituições particulares de solidariedade social, para perceberem que novas respostas poderão desenvolver. “Vamos ver que ideias novas é que eles põem em cima da mesa”, afirma o presidente, destacando ainda a existência de uma biblioteca com livros provenientes do tempo do Ministério das Corporações, criado durante o Estado Novo.
Reeleito aos 85 anos, João Gaudêncio Gomes já avisou os restantes elementos dos órgãos sociais para se prepararem para assegurar o futuro da instituição. Enquanto a saúde permitir, garante que continuará a acompanhar a Casa do Povo e a procurar soluções para a terra onde nasceu e sempre viveu. “Quem corre por gosto não cansa. Gosto da minha terra e gosto de resolver as coisas de Samora Correia, dentro daquilo em que posso ajudar”, conclui.

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