Vale do Forno quer voltar ao mapa internacional da arqueologia
Sítio arqueológico de Alpiarça guarda vestígios de grupos humanos que viveram há cerca de 300 mil anos. Investigadores procuram agora refinar a cronologia das ocupações e recolher amostras para análises de ADN antigo.
Um dos mais importantes sítios arqueológicos do Paleolítico Inferior na Península Ibérica abriu as portas à comunidade no dia 29 de Julho. O Dia Aberto das escavações do Vale do Forno, em Alpiarça, permitiu aos visitantes conhecerem de perto o trabalho desenvolvido por investigadores da Universidade de Lisboa e perceberem como se estudam ocupações humanas com centenas de milhares de anos. Carlos Ferreira, arqueólogo e investigador da Universidade de Lisboa, explicou a O MIRANTE que o Vale do Forno é uma área única na Península Ibérica. O sítio foi descoberto em 1992 pelo arqueólogo Luís Raposo, que recolheu uma colecção de cerca de três mil artefactos em pedra.
Os estudos realizados apontam para que aquele local tenha funcionado como uma oficina de talhe, onde grupos de caçadores-recolectores produziam ferramentas em pedra lascada há cerca de 200 a 300 mil anos. A equipa decidiu retomar as escavações para obter mais informação sobre o contexto em que surgem os materiais, refinar a cronologia das ocupações e conhecer melhor o ambiente existente naquela época. “Queremos fazer análises que nos permitam conhecer o paleoambiente, recolher amostras para estudar ADN antigo e perceber melhor o comportamento humano representado neste sítio arqueológico”, afirmou Carlos Ferreira.
Os investigadores registam em três dimensões a posição exacta de todos os materiais encontrados. Os artefactos seguem depois para análises laboratoriais de geoquímica, palinologia, termoluminescência e datação absoluta. Este ano, a equipa vai também tentar obter resultados de ADN antigo. Os trabalhos contam com financiamento de uma bolsa norte-americana da Fundação Leakey. O objectivo é consolidar o projecto, realizar uma nova campanha de escavações no próximo ano e desenvolver estudos geológicos e geomorfológicos que permitam reconstituir com maior rigor as ocupações humanas do Vale do Forno. A equipa pretende igualmente continuar a procurar financiamento internacional, numa estratégia que visa relançar a investigação e voltar a colocar o sítio arqueológico de Alpiarça no mapa científico internacional.
Explicar ao público o passado
Além da vertente científica, os investigadores querem aproximar o património arqueológico da população. Carlos Ferreira considera que iniciativas como o Dia Aberto são fundamentais para que o conhecimento não fique limitado às revistas da especialidade. “Pretendemos que o conhecimento destas ocupações chegue à população do concelho e a todos os que estão interessados”, sublinhou. O arqueólogo reconhece, no entanto, que explicar ao público a importância do Vale do Forno é um desafio. Ao contrário de uma vila romana, onde permanecem muros e estruturas que podem ser visitados, no sítio de Alpiarça os principais vestígios são ferramentas em pedra integradas em camadas geológicas. “Quando retiramos os artefactos, não ficam estruturas visíveis. Fica apenas a escavação. Conseguir fazer chegar essa informação e explicação ao grande público acaba por ser desafiante”, concluiu.


