Cultura | 18-08-2026 21:00

O trabalho invisível por detrás das estátuas vivas de Santarém

O trabalho invisível por detrás das estátuas vivas de Santarém
Luís Palhares - foto O MIRANTE

Um cesteiro fixa o olhar no vazio. O engraxador espera o próximo cliente. O cauteleiro segura um pedaço de um tempo que já quase ninguém reconhece. Nas ruas de Santarém, dezoito artistas transformaram o corpo em memória e devolveram, por algumas horas, vida a velhos ofícios portugueses.

No meio da rua, sob o calor de Agosto, os artistas permanecem imóveis enquanto tudo à volta continua a mexer-se durante o Festival de Estátuas vivas que animou o centro histórico de Santarém durante um fim-de-semana. Zairo Torres é um dos artistas. Está transformado em cesteiro, de corpo quieto e olhar fixo. Antes de chegar passou cerca de 40 minutos a preparar-se. Roupa, caracterização, postura. Depois, alguns alongamentos e concentração. O mais difícil começa quando já não pode mexer-se. “Ficar imóvel é um desafio”, conta à jornalista de O MIRANTE. A técnica é simples de explicar e difícil de cumprir: escolher um ponto e manter o foco. A partir daí começa outra experiência. “Divagas muito no teu interior. É uma viagem muito interior e, de certa maneira, és um observador daquilo que está a acontecer à volta. É como se o tempo congelasse ali”. Zairo já representou Portugal em encontros internacionais de estátuas vivas. Desta vez coube-lhe dar corpo a um ofício que conhece mais da memória colectiva do que das ruas de hoje. “É um orgulho representar um cesteiro, porque é uma profissão que antigamente havia muito e actualmente é raro encontrar alguém que faça cestos”, diz.
Mais adiante, Luís Palhares, de Santarém, transforma-se em engraxador. João Filipe, que vive em Almeirim, veste a pele de cauteleiro. Personagens diferentes, mas uma preparação semelhante. Ambos estudam os ofícios que representam, procuram os gestos, a postura e a expressão certa. Não basta ficar quieto. É preciso convencer quem olha de que aquela figura pertence realmente ao mundo que está a representar. Antes das actuações há alongamentos, concentração e uma tentativa de entrar na personagem. Depois vem o silêncio, interrompido apenas pelos movimentos breves que surpreendem quem passa.
Guilherme Ferreira, transformado em carpinteiro, prefere deixar espaço ao improviso. Faz estátuas vivas há 20 anos e já não precisa de planear tudo ao pormenor. “Deixo muito que o momento decida o que vai acontecer”, explica. Observa o público, sente o ambiente e reage. “Vou sentir o público, vou sentir o ambiente, vou sentir a dinâmica. E logo ali vou decidir”. A experiência valeu-lhe, nesta edição, o Prémio do Júri, atribuído pela qualidade artística, criatividade, expressividade e rigor. Para chegar à rua precisou de cerca de 30 minutos de preparação, mas o trabalho começa muito antes. É esse trabalho invisível que Guilherme Ferreira faz questão de lembrar. Construir uma personagem implica pensar o figurino, encontrar materiais, adaptar peças, testar acessórios e repetir até que tudo pareça natural. “As pessoas, às vezes, não imaginam o trabalho que dá a fazer um figurino. Não imaginam a dedicação que pomos muitas vezes para chegar a este objecto, a este trabalho final”, afirma.

João Filipe - foto O MIRANTE
Zairo Torres - foto O MIRANTE

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