Campinos mostram em Coruche que a tradição ainda se faz a cavalo
Cortejo Histórico e Etnográfico encheu as ruas de Coruche num dia dedicado às tradições, às profissões antigas e, sobretudo, aos campinos. João Inácio e Fidélio Mota carregam décadas de experiência e garantem que, mais do que vestir uma farda, ser campino é uma forma de vida.
Nem o calor intenso afastou a população das ruas de Coruche na manhã de segunda-feira, 17 de Agosto. O Cortejo Histórico e Etnográfico voltou a transformar a vila num palco de memórias, costumes e tradições, com freguesias, associações, colectividades, casas agrícolas, famílias e voluntários a recriarem profissões e episódios que marcaram várias gerações do concelho. Sob o tema “Aqui está Coruche: Uma História de Gerações – Do Ribatejo ao Cortejo”, o desfile teve como protagonistas os campinos, numa jornada em que a vila assinalou o Dia do Campino e prestou homenagem a uma profissão inseparável da identidade ribatejana.
Montado no seu cavalo cinzento e preparado para abrir caminho no cortejo, João Inácio não escondia o orgulho pela farda que veste desde muito novo. Aprendeu a profissão com o pai e decidiu seguir-lhe os passos. “Campino é um orgulho das nossas gentes, da terra, do campo e é uma tradição já muito antiga. É com muito orgulho que vestimos esta farda e podemos mostrar um bocadinho como é o campo”, afirmou a O MIRANTE. Para João Inácio, ser campino está longe de se resumir à imagem que chega aos cortejos e festas populares. Há responsabilidades diárias e animais que não conhecem horários, fins-de-semana ou dias festivos. O gado tem de ser alimentado e tratado, mesmo quando isso significa abdicar de momentos pessoais ou familiares. Considera que a profissão continua bem presente no Ribatejo, embora reconheça que encontrar jovens disponíveis para abraçar esta vida se tornou mais difícil. “Os jovens hoje em dia querem chegar ali a uma certa hora, ir embora e passar o fim-de-semana sossegados”, lamenta.
Uma profissão que se aprende com os mais velhos
À passagem do cortejo, as ruas estavam cheias. Muitos espectadores procuravam a sombra enquanto esperavam pelos carros alegóricos e pelas recriações de antigas profissões, mas, quando o desfile começou, o entusiasmo venceu o calor e aproximou participantes e público. No final, enquanto os campinos recolhiam os animais, Fidélio Mota falou a O MIRANTE sobre os 20 anos que leva de profissão. A paixão pelos cavalos e pelos toiros começou por levá-lo a montar a cavalo até surgir a oportunidade de trabalhar directamente com o gado. “Fui aprendendo com os mais velhos, eles iam-me explicando as coisas e fui ganhando experiência”, recorda. Para Fidélio Mota, ser campino é preservar uma tradição portuguesa e não há dificuldades que se sobreponham ao gosto pela profissão. “Quando se fazem as coisas por gosto, nada é difícil”, garante.
Depois de duas décadas a trabalhar com animais, diz que um dos maiores ensinamentos foi aprender a ter paciência. O respeito pelo animal é, para si, um dos principais segredos de um bom campino, a par da coragem e da capacidade de perceber que no campo não se pode forçar o tempo. Natural do Alentejo, foi em Coruche que encontrou a terra onde construiu a sua vida e onde continua a exercer a profissão que escolheu. Cansado depois de uma manhã de cortejo, mas visivelmente satisfeito, resume numa frase a ligação que criou à vila: “Coruche é a terra que me adoptou e este é o ponto alto do ano”, vinca.


