Cultura | 31-08-2026 18:00

Professor de Alverca quer fazer história e ser o mais velho no cume do Evereste

Professor de Alverca quer fazer história e ser o mais velho no cume do Evereste
Fernando Ferreira com o piolet que o vai ajudar a trepar a montanha mais alta do mundo - foto O MIRANTE

Com mais de sessenta subidas ao topo de montanhas por todo o mundo nas últimas décadas, Fernando Ferreira, de Alverca, vai abraçar no próximo ano o maior desafio da sua vida: escalar o Evereste sem o apoio de oxigénio suplementar, feito até hoje só conseguido por um português.

Aos 63 anos, o professor de educação física de Alverca, Fernando Ferreira, prepara-se para enfrentar no próximo ano o maior desafio da sua vida. O montanhista vai tentar subir o Evereste pelo lado nepalês e sem oxigénio suplementar, um feito que ainda só foi alcançado por outro português, João Garcia. A concretizar-se a escalada, Fernando Ferreira passará a ser a pessoa mais velha do Mundo a conseguir esse feito.
Para trás tem um currículo de mais de sessenta subidas a montanhas de todo o Mundo. “O sonho de subir ao Evereste nasceu quando tinha 16 ou 17 anos e os sonhos não têm prazo de validade”, confessa a O MIRANTE. Fernando Ferreira diz a idade sem hesitar, como quem conhece perfeitamente o peso e o significado do número. No próximo ano lectivo deixará temporariamente as salas de aula de Alverca, pedindo uma licença sem vencimento para abraçar o projecto Evereste.
Casado e com quatro filhos, vive há 26 anos na freguesia de São João dos Montes e há uma década que criou o projecto MountainLover, onde é guia de montanha e leva portugueses aos picos mais altos do mundo. “Este é o corolário de um percurso de 37 anos. Não é um maduro que de repente tem dinheiro e decide subir ao Evereste. Não é para provar nada a ninguém nem a mim próprio. Só agora tive a oportunidade de realizar este sonho. Quero subir ao ritmo do coração, respeitar as minhas capacidades, desfrutar da montanha e da vida”, conta.
Apesar de ter escalado muitas montanhas acima dos sete mil metros, esta é a primeira vez que vai tentar a ascensão a um pico situado acima da chamada “zona da morte”. O Evereste, recorde-se, tem uma altitude de 8.848 metros acima do nível do mar, quatro vezes a altura da Serra da Estrela.

Uma aventura com riscos
No caso do Evereste, que é um dos maiores desafios do Mundo no montanhismo, subir sem oxigénio suplementar é apenas metade do caminho. “Também é preciso descer, numa zona onde só tens 33% do oxigénio que aqui em baixo. Ficas mais cansado, tudo te dói, sentes mais o frio. É uma prova de superação mental como nenhuma outra”, explica.
João Garcia foi o primeiro português a chegar ao cume do Evereste sem oxigénio suplementar. A descida, recorde-se, esteve perto de terminar em tragédia: A mais de 7.000 metros, desorientado, recebeu ajuda de alpinistas polacos, que lhe forneceram oxigénio e o ajudaram a regressar. O colega que o acompanhava, o belga Pascal Debrouwer, morreu. Fernando Ferreira conhece essa história e sabe que o Evereste não perdoa erros. Não quer morrer mas admite que o medo nestes casos está sempre presente. “Estou a treinar muito bem. O meu corpo está a reagir muito bem e os próximos meses vão ser de muito treino em altitude”, conta.
O MIRANTE falou com o montanhista antes de partir, agora em Setembro, para a Bolívia, onde vai subir o Huayna Potosí (6.088m). Depois, em Outubro, estará no Nepal para subir o Himlung Himal (7.126m). No mês seguinte voa para o Butão, onde fará trekking em montanhas de 4 a 5 mil metros. Após o Natal a agenda continua preenchida: em Janeiro sobe ao pico do Aconcágua (6.961m) na Argentina; e em Março vai estar na Lapónia e na Finlândia para se adaptar ao frio. A janela para subir ao Evereste acontece entre Abril e Maio do próximo ano.
Fernando Ferreira sabe que há quem o considere louco. Algumas pessoas dizem-lhe para não avançar, por amizade, por amor ou porque gostam dele. Outras tentam simplesmente dissuadi-lo. “Percebo porque o fazem. Tenho filhos e uma família maravilhosa, tenho amigos fantásticos e quero viver. Estar longe da família vai-me custar mais do que o frio”, partilha. No peito vai levar um equipamento GPS onde uma equipa no campo base vai acompanhar a sua progressão. Esse equipamento vai também permitir-lhe enviar imagens do topo da montanha.

Uma linha ténue entre viver e morrer
A segunda grande dificuldade da subida será a Cascata de Gelo do Khumbu, uma das zonas mais perigosas de toda a cordilheira. Depois virão o frio, a fome, a sede e, sobretudo, a altitude. No Evereste não basta coragem, é necessário discernimento. “Há uma linha muito ténue entre saber quando continuar ou parar e voltar para trás, porque é isso que define a linha entre viver ou morrer na montanha. Espero conseguir ter capacidade para perceber esse momento, perceber quando é que é a altura de parar e voltar para trás, porque já demos o nosso melhor”, refere. A O MIRANTE diz que dará tudo o que tem mas não colocará o sonho do cume acima da sua vida.
Fernando Ferreira deverá iniciar a expedição entre Abril e Maio, embora ainda não tenha uma data final definida. A estratégia passa por combinar a subida com uma expedição da MountainLover ao Campo Base do Evereste. Primeiro levará um grupo de clientes ao campo base e regressará com eles a Kathmandu. Depois, enquanto os clientes regressam a casa, Fernando Ferreira voltará ao Evereste para iniciar a subida. A partir do Campo Base, calcula que precisará de 35 a 40 dias para completar a ascensão e a descida, caso tenha feito bem a preparação e as condições meteorológicas o permitam.
Há ainda uma preocupação adicional: o tráfego humano na montanha. São cada vez mais frequentes imagens de longas filas de alpinistas no Evereste à espera de ultrapassar o chamado “Degrau de Hillary” até ao cume. “Não posso ficar preso numa fila daquelas senão morro. Ficar mais tempo exposto ao frio e à altitude sem oxigénio pode ser fatal. Tenho de ter sempre um ritmo, por isso ou vou antes de toda a gente ou no final”, explica.

À procura de apoios para a expedição

Fernando Ferreira está a tentar reunir apoios e patrocínios para a expedição que promete ficar na história. Além de um crowdfunding na plataforma GoFundMe está à procura de empresas que se queiram associar ao projecto e ter o seu nome no ponto mais alto do planeta. “Quero subir mas quero viver. Ando a viver o meu sonho e quero viver a vida da melhor maneira que sei e posso. É isso que me faz feliz”, conta a O MIRANTE.

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