Vale de Santarém recupera festa perdida há 26 anos
Nova Comissão de Festas da Vila, criada em Novembro de 2025, recuperou uma tradição interrompida durante 26 anos. O regresso juntou 25 fogaceiras, mais de meia centena de festeiros e milhares de visitantes ao longo de três dias. Depois de um “ano zero” que superou todas as expectativas, a organização quer fazer crescer a festa e assume como inspiração a Festa dos Tabuleiros de Tomar.
Durante 26 anos o Vale de Santarém ficou sem a sua festa anual em honra de Nossa Senhora da Expectação, marcada pelo tradicional desfile das fogaceiras. A última edição tinha-se realizado em 2000 e a tradição parecia condenada a ficar apenas na memória até Paulo Paixão, 52 anos, e Márcio Alexandre, 45, decidirem que era tempo de voltar a pôr a vila em festa. A ideia ganhou forma em Outubro de 2025 e, a 6 de Novembro, foi constituída a Letras Festivas – Associação Comissão de Festas da Vila do Vale de Santarém, cuja direcção é presidida por Paulo Paixão, sendo Márcio Alexandre presidente da assembleia. Começaram praticamente do zero ou, como brincam, “do menos 300”, porque os primeiros 300 euros foram gastos na constituição da associação. “Primeiro as pessoas diziam que éramos malucos, porque de Dezembro até Junho achavam que não se conseguia organizar uma festa. Mas fizemos e correu muito bem”, recorda Márcio Alexandre. A ideia inicial era reunir cerca de 20 festeiros, mas a adesão rapidamente ultrapassou as expectativas. O grupo cresceu para 52 adultos, acompanhados por cerca de 20 crianças que os responsáveis encaram já como o futuro da tradição.
Os primeiros fundos surgiram através de uma contribuição de 25 euros de cada festeiro e da realização de iniciativas no salão paroquial, cedido temporariamente pela paróquia. O verdadeiro teste chegou em Junho, quando a festa regressou finalmente às ruas do Vale de Santarém. “Superou todas as expectativas. Tivemos os três dias de casa cheia e vieram pessoas de longe para ver a festa”, afirma Márcio Alexandre. O desfile de abertura juntou entre 150 e 200 participantes. Mais importante, dizem os dirigentes, foi a reacção da população. “Ainda não houve ninguém que chegasse ao pé de nós e dissesse que alguma coisa esteve mal. As pessoas dizem que estava tudo bonito e bem arranjado”, acrescenta.
Tradição regressou com novas ideias
O regresso foi vivido com emoção por quem passou meses a preparar a festa. “Foi muito trabalho, mas muito gratificante. Posso dizer que chorei todos os dias, assim como o Paulo e outros festeiros, porque isto fazia parte da nossa cultura e já não se juntava tanta gente do Vale de Santarém há muitos anos”, confessa Márcio Alexandre. A associação recuperou a tradição das fogaceiras, mas não quis limitar-se a repetir o modelo antigo. Se anteriormente desfilavam cinco ou seis, este ano foram 25. “As pessoas vieram ter connosco a oferecerem-se para ser fogaceiras”, conta Paulo Paixão. Participaram meninas e jovens entre os dois e os 20 anos. Também o leilão das fogaças foi adaptado. Para evitar grandes diferenças entre os valores conseguidos por cada participante, a organização definiu um intervalo entre 100 e 150 euros. Há, porém, costumes que permanecem. “Acontece sempre que os desgraçados dos familiares que fazem a fogaça ainda têm de a comprar”, brinca Paulo Paixão. Outra novidade foi a criação do Garrett, um bolo inspirado na passagem de Almeida Garrett pela vila. A associação desafiou cozinheiras a desenvolverem uma receita associada às fogaceiras e acabou por escolher um bolo seco, com sabor a limão e fácil de conservar. No desfile, cada fogaceira transporta agora uma pequena fogaça com um Garrett no interior.
A associação não quer viver apenas dos três dias de festa e tem realizado iniciativas ao longo do ano para angariar fundos e manter a população envolvida. Cantar às Janeiras, uma Noite dos Anos 80, um torneio de futsal e um Festival das Sopas foram algumas das actividades já promovidas, estando outras previstas. Um dos próximos desafios passa pela criação de uma sede permanente no recinto das festas, espaço ainda em terra batida e sem água, electricidade ou esgotos. A direcção está em contactos com a Junta de Freguesia e a Câmara de Santarém para conseguir melhorar as condições do local. Depois do sucesso do regresso, a ambição aumentou. “Queremos que daqui a uns anos a festa seja como a dos Tabuleiros de Tomar. É o nosso objectivo”, assume Paulo Paixão. Para os responsáveis, 2026 foi apenas “o ano zero”. “Este ano nem sabíamos bem no que nos estávamos a meter. Para o ano é que vai ser o ano um, mesmo a sério”, diz Márcio Alexandre.


