“Não se pode fotografar um território sem fotografar a sua gente”
Paulo Sousa fotografa o território há quatro décadas e vê cada imagem como um documento de um tempo condenado a mudar. Natural do Sardoal e coordenador do Projecto Fotográfico 2026 do Centro Cultural Regional de Santarém, prefere as pessoas e os pequenos detalhes aos cenários óbvios dos postais turísticos.
Foi num pequeno café do Sardoal, com um álbum da Semana Santa entre as mãos, que Paulo Sousa falou com O MIRANTE sobre fotografia, memória e território, a propósito do Dia Mundial da Fotografia, assinalado a 19 de Agosto. Ao folhear as páginas reconhece rostos, lugares e momentos captados ao longo de décadas e que hoje ganharam um valor que ultrapassa a fotografia: tornaram-se documentos de uma época. Paulo Sousa começou a fotografar em 1986, numa formação do Centro Cultural Regional de Santarém. Quando revelou o primeiro rolo percebeu que queria continuar. Uma dessas primeiras imagens mostrava três cadeiras vazias encostadas a uma parede, numa provocação política e cultural relacionada com uma reunião de presidentes de câmara sobre cultura à qual alguns autarcas tinham faltado.
Quatro décadas depois defende que o olhar fotográfico se constrói com persistência, cultura visual e contacto com o trabalho de outros autores. É essa ideia que procura transmitir enquanto coordenador do Projecto Fotográfico 2026 do Centro Cultural Regional de Santarém. Cada participante escolhe livremente o tema e a metodologia e o objectivo não é impor estilos. “Podem estar a fotografar a mesma coisa, mas têm de ter um olhar pessoal”, afirma. Para Paulo Sousa, o reconhecimento maior acontece quando alguém olha para uma imagem e consegue identificar quem a fotografou.
Fotografar também é preservar
A consciência de que uma fotografia pode tornar-se memória histórica não surgiu logo aos 18 anos. “Só depois, quando as pessoas começam a desaparecer ou as paisagens a mudar, é que determinadas imagens ganham outro significado”, explica. Dá o exemplo de uma fotografia da Semana Santa onde dois homens, entretanto falecidos, bebem vinho numa esplanada enquanto, ao fundo, um padre profere um sermão. Uma cena quotidiana que acabou transformada num retrato de um tempo. Para Paulo Sousa fotografar não é apenas apontar a máquina ao que está diante dos olhos. Procura encontrar uma “paisagem diferente dentro da mesma paisagem”. Foi o que fez durante um recente eclipse solar. Enquanto muitas objectivas estavam apontadas ao céu, decidiu fotografar também as pessoas que observavam o fenómeno. A mesma lógica leva-o a evitar os ângulos mais evidentes dos locais turísticos. No Castelo de Almourol, por exemplo, uma das últimas fotografias que fez nem sequer mostra o monumento. “Fotografei jovens a chegar de canoa. Ficou o rio, as canoas, a cor e as pessoas”, conta. Numa aldeia, um saco de pão pendurado num portão pode dizer-lhe mais sobre o território do que qualquer local recomendado num guia turístico.
Um Ribatejo para lá dos símbolos
Paulo Sousa reconhece na Lezíria, nos touros, nos campinos ou nas culturas agrícolas alguns dos símbolos mais fortes do Ribatejo, mas considera redutor resumir a região a essas imagens. “Ao andar pelo distrito nota-se que há quase dois Ribatejos”, refere, lembrando que o Sardoal pertence à região mas não tem a mesma ligação à cultura tauromáquica de outras zonas. É nessa diversidade que encontra matéria para fotografar. Aldeias, zonas junto aos rios e hábitos quotidianos permanecem muitas vezes invisíveis para quem atravessa o território sem parar. “Às vezes o que nos faz falta é pegar num carro e ir dar uma volta”, afirma. E, se lhe pedissem uma fotografia capaz de caracterizar o Ribatejo sem recorrer aos lugares-comuns, provavelmente escolheria pessoas. “Não se pode fotografar um território sem fotografar a sua gente. Eu tento quase sempre meter pessoas nas minhas fotos”, diz, definindo essa opção como uma “paisagem humanizada”.
A defesa da fotografia enquanto memória leva-o também a olhar com preocupação para a inteligência artificial. Paulo Sousa continua a imprimir fotografias e a guardá-las em álbuns e alerta para os riscos da alteração digital de imagens antigas. A tecnologia pode retirar ou acrescentar elementos e criar uma realidade que nunca existiu. “A IA pode baralhar este processo histórico da identificação dos tempos”, avisa. Porque, para o fotógrafo, uma das maiores forças de uma imagem continua a ser precisamente essa: guardar aquilo que um dia pode deixar de existir.


