Cultura | 02-09-2026 12:00

O jornalismo como ferramenta de reinserção: associação de VFX leva literacia mediática a jovens

O jornalismo como ferramenta de reinserção: associação de VFX leva literacia mediática a jovens
Emerson Coutinho e James Silva, dois dos rostos da associação HeartBravery de Vila Franca de Xira, acreditam que o jornalismo regional é uma oportunidade para mostrar que a informação também pode partir do território onde cada pessoa vive. - foto O MIRANTE

Criada em Vila Franca de Xira em 2023, a HeartBravery nasceu com a ambição de aproximar arte, educação e cultura das comunidades. Um dos projectos leva jovens em medida tutelar a contactar com jornais e a promover o gosto pelo jornalismo. Associação quer reforçar presença no concelho.

Num centro educativo em Caxias, jovens em medida tutelar estão a aprender a ler jornais, interpretar textos, distinguir notícias reais de falsas, trabalhar a voz, fotografar, filmar e produzir conteúdos. O projecto chama-se “Social Jor Doc Cine”, tem sido um sucesso e é promovido pela HeartBravery, uma associação de Vila Franca de Xira criada em Junho de 2023. Usa o jornalismo como ferramenta de educação, pensamento crítico e construção de novas possibilidades para jovens que vêm de passados complicados, alguns ligados à criminalidade. A ideia de liberdade, participação e construção de novas possibilidades está no centro da intervenção da HeartBravery. Criada por dois brasileiros radicados em Portugal, Emerson Coutinho e James Silva, um residente em VFX e outro em Alverca, a associação apresenta-se como uma organização cultural que pretende unir pessoas através da arte, da cultura, das belas-artes, da educação e da música, contribuindo para o crescimento social e cultural do concelho de Vila Franca de Xira e da região.
A sua missão passa por levar conteúdos culturais e educativos às comunidades e dinamizar iniciativas que aproximem cidadãos de diferentes idades. Mais do que organizar actividades culturais, a associação quer criar oportunidades de participação e aprendizagem, sobretudo junto de comunidades que têm menos acesso a estas experiências. Têm vários projectos, mas é o do jornalismo que tem dado que falar. “O jornalismo é a ferramenta ideal para combater as fake news numa comunidade, onde muita gente ainda não tem acesso total à informação”, explica a O MIRANTE Emerson Coutinho. O colega, James Silva, chegou a Portugal em 2019, trabalhou como realizador de videoclipes, passou pela área da educação social e deu aulas de música e expressão artística. Em Portugal passou pelo Ministério da Justiça, onde acompanhou durante dois anos e meio o gabinete de duas ministras.

O sucesso do jornal impresso
A associação começou por tentar desenvolver os projectos em Vila Franca de Xira mas ainda não conseguiu frutificar essa intenção, apesar dos contactos com o município. O projecto acabou por ser apresentado à Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e aceite para ter uma implementação-piloto no Centro Educativo Padre António Oliveira em Caxias. O “Social Jor Doc Cine” destina-se a jovens entre os 14 e os 17 anos em medida tutelar e a equipa não tem acesso aos processos individuais dos jovens. As sessões combinam teoria e prática e abordam notícia, rádio, podcast, fotografia, vídeo, documentário e publicação digital. Os participantes escrevem, fotografam, gravam, entrevistam e trabalham diferentes formas de transformar experiências em conteúdos.
A associação procura utilizar a comunicação como ferramenta pedagógica mas também como forma de identificar necessidades que podem passar despercebidas. Uma das experiências que mais surpreendeu a equipa aconteceu quando começaram a distribuir jornais impressos durante as sessões, que acontecem uma vez por semana. Num contexto em que os jovens têm acesso limitado à internet e às redes sociais, o jornal tornou-se a porta de entrada para o mundo exterior. Com o apoio de vários órgãos de comunicação social, entre os quais O MIRANTE, os responsáveis passaram a levar exemplares para as aulas. “Quando começamos a entregar os jornais, eles começaram a abrir, ler e comentar um com o outro, e não falavam mais connosco, foi muito interessante. E o mais giro de tudo isto é que O MIRANTE já é um dos mais requisitados. Temos jovens que nos pedem logo O MIRANTE quando chegamos”, confessa Emerson Coutinho, que vai todas as semanas a vários pontos do país buscar os jornais que depois permitem uma leitura colectiva.

O MIRANTE como exemplo de resistência

Entre os jornais usados no projecto está O MIRANTE, cujos exemplares são utilizados nas sessões. Para Emerson Coutinho, a presença de um jornal regional entre os títulos nacionais tem uma importância particular. “O MIRANTE é o único jornal regional que usamos. Foi logo o jornal que comecei a ler quando cheguei a Vila Franca de Xira. É um exemplo de resistência na imprensa, veja-se o que aconteceu com o caso que descrevem no vosso livro, “O Processo”, quando vos tentaram derrubar em tribunal. São um jornal com uma forte identidade e essa resistência passa para os jovens”, explicam os responsáveis. A associação vê no jornalismo regional uma oportunidade para mostrar que a informação também pode partir do território onde cada pessoa vive. “Eu vejo aqueles jovens nas redacções nacionais, a dar a volta às suas vidas. Vejo-os nas ruas com microfones, no seu bairro, a montar um jornal comunitário por exemplo. A fazerem a diferença pela positiva”, conclui Emerson Coutinho.

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