Cultura | 08-09-2026 18:00

Tradição, esforço e amor: o segredo do arroz que adoça o Festival da Sopa da Pedra de Almeirim

Tradição, esforço e amor: o segredo do arroz que adoça o Festival da Sopa da Pedra de Almeirim
Laurinda Fernandes, Maria José Duarte e Luciana Marcelino (da esq. para a dir.) da Gentes de Almeirim que confecciona o arroz-doce à moda antiga - foto O MIRANTE

O arroz-doce que Luciana Marcelino leva ao Festival da Sopa da Pedra é tradição passada de geração em geração, feito com mais de duas horas de força de braços e dezenas de quilos de arroz, num trabalho que envolve toda uma equipa. A vicepresidente da Gentes de Almeirim mantém viva a receita da avó, que se tornou uma referência do certame.

O arroz-doce que Luciana Marcelino leva ao Festival da Sopa da Pedra, em Almeirim, não é apenas sabor, é tradição, história e esforço. A receita veio da sua avó e mantém-se praticamente igual, mas hoje já não é feita por uma só pessoa, é preciso uma equipa. Laurinda Fernandes e Maria José Duarte são duas das ajudantes que repartem a força de braços a mexer o arroz. Quando há muito movimento, chegam a ser feitos cinco ou seis tachos, num total de cerca de 30 quilos de arroz. Ao longo do festival, a conta pode chegar aos 150 quilos de arroz e a muitas dezenas de pacotes de leite, diz Luciana, vice-presidente da Gentes de Almeirim, presente no festival desde as primeiras edições a adoçar a boca aos visitantes.
Por cada cinco quilos de arroz são utilizados cerca de 40 litros de leite. O segredo é não parar de mexer o arroz durante duas horas e meia ao lume. Se não se estiver sempre a mexer a receita não fica tão boa, descreve Luciana Marcelino, que sabe bem a diferença de fazer umas taças para um almoço ou para centenas de pessoas. Não há cronómetros nem termómetros que substituam a experiência. Quando o arroz está quase pronto, prova-se. É preciso perceber se está cozido no ponto certo, sem deixar desfazer-se demasiado ou ficar empapado. É a sensibilidade, resume Luciana, 57 anos. Até o arroz utilizado é escolhido a pensar no resultado final. Há cerca de três anos que utilizam arroz de uma empresa de Benavente, procurando variedades com bastante goma, característica considerada essencial para conseguir a consistência pretendida.
Antigamente era utilizado leite directamente da vaca, com uma gordura e uma consistência diferentes. Hoje é necessário adaptar as quantidades aos produtos disponíveis. O preço dos ingredientes também obrigou a fazer contas. O leite e o arroz aumentaram de preço e houve necessidade de ajustes. Luciana conta ainda que são muitos os visitantes que procuram especificamente o seu arroz-doce. Há clientes habituais e até uma família de Braga que, quando regressa de férias, faz questão de passar por Almeirim e ir comer uma taça de arroz-doce.
A tradição tenta ganhar novas mãos e a herdeira da receita já ensina sobrinhos e netos, na esperança de que esta não fique apenas na memória. Mas reconhece que não é fácil convencer os mais novos a passar horas de pé a mexer dezenas de quilos de arroz num tacho pesado. É também por isso que vê no Festival da Sopa da Pedra uma oportunidade para manter vivas as tradições de Almeirim.
O sabor é aprimorado com o limão e a canela, mas há um ingrediente indispensável: o amor, porque “se faltar amor, falta tudo”.

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