Pontével acelera sobre rodas na Corrida Mais Louca do Ribatejo
Carrinhos de rolamentos voltaram a descer as ruas de Pontével numa prova em que ganhar é o menos importante. A Corrida Mais Louca do Ribatejo junta várias gerações, criatividade e muita adrenalina e é uma das tradições mais aguardadas das Festas em Honra de Nossa Senhora do Desterro.
Em Pontével não é preciso motor para acelerar. Bastam quatro rodas, alguma imaginação e coragem para enfrentar a descida. A Corrida Mais Louca do Ribatejo voltou a animar a vila na tarde de 5 de Setembro, integrada nas Festas em Honra de Nossa Senhora do Desterro, juntando participantes de várias idades e uma multidão ao longo do percurso. A corrida é uma celebração da tradição e do convívio. Há quem procure afinar a travagem, quem tente manter o carrinho inteiro até à meta e quem se emocione ao encontrar a multidão na curva junto ao recinto da festa.
Mónica Calixto, 50 anos, sabe bem o que isso significa. Participa há 11 anos e fez a primeira descida em 2015, um ano antes de o seu grupo de “Quarentões” assumir a organização dos festejos. Em Pontével, explica, a tradição começa muito antes dos 40 anos, com jantares, encontros e preparativos que ajudam a manter unido cada grupo. “Se somos de Pontével, nascemos com este bichinho de que, quando fizermos 40 anos, vamos organizar a festa”, diz. O carrinho do grupo mantém praticamente a mesma estrutura desde 2015, embora vá recebendo adaptações. A primeira versão recriava o Moinho do Lobo, um dos símbolos da terra, e este ano a decoração assinalava os 50 anos dos participantes. Para Mónica Calixto, o mais importante continua a ser chegar ao fim e aproveitar o momento. “O nosso lema é o convívio, é a participação. É irmos e desfrutarmos. É uma alegria”, resume.
A tradição já tem sucessores. Diogo Luís e João Varanda, ambos com 25 anos, participaram pelo quarto ano consecutivo e vestiram camisolas onde se lia “Quarentões 2041”, o ano em que lhes caberá organizar a festa. Cresceram a ver os pais participar e começam desde já a preparar o futuro. O carrinho levou cerca de duas semanas a construir e já resistiu a várias descidas. Na pista, a estratégia é simples. “O mais importante é não bater”, brinca João Varanda. Diogo Luís acrescenta que é preciso sobretudo “consistência”. Vítor Mendão, 53 anos, é já um veterano destas andanças e participou em “quase todos” os anos. Foi “Quarentão” em 2013 e, desta vez, partilhou o carrinho com o filho, de 19 anos. A estrutura mantém-se, mas a decoração muda todos os anos. Em 2026 surgiu revestida com sacos de cimento, numa homenagem à empresa de materiais de construção onde trabalha. Antes já passou pela corrida em forma de retroescavadora e até de grade de cerveja. “A velocidade dá mais adrenalina, mas participar é que é engraçado”, afirma.
Futuros quarentões já vestem a camisola
Quem vai assumir a festa em 2027 também já está em preparação. Os futuros “Quarentões” participaram este ano com um carrinho inspirado na caspiada, bolo tradicional de Pontével, recriando o processo desde a preparação no forno até ao momento em que chega à mesa. João Xavier, porta-voz do grupo, diz que a ambição para o próximo ano passa por “fazer o melhor para a terra”, mantendo uma festa capaz de juntar habitantes e visitantes. Filho de antigos “Quarentões” e ajudante da organização há vários anos, não tem dúvidas sobre a força desta tradição. “É daquelas coisas que acaba por entranhar e está no nosso sangue”, resume.


