No Rancho d’Atalaia a tradição dança-se em família
Pais, filhos, avós, tios e sobrinhos partilham o palco e uma paixão que atravessa gerações. No Festival de Folclore de Ponte Celeiro, o Rancho Folclórico d’Atalaia mostrou que preservar a tradição é também manter vivas as memórias de família.
Há tradições que se aprendem e outras que parecem nascer connosco. No Rancho Folclórico d’Atalaia, a dança passa de pais para filhos, de avós para netos e, em alguns casos, começa ainda antes dos primeiros passos. “Nasci na barriga da minha mãe a dançar”, conta Isa Almeida, de 21 anos, para explicar uma ligação ao folclore que nunca conheceu princípio. O grupo, anfitrião do Festival de Folclore de Ponte Celeiro, nasceu por volta de 1988 como uma marcha e foi evoluindo até se transformar num rancho dedicado à recuperação das raízes e tradições da região. Como rancho folclórico existe sensivelmente desde 1992 e conta actualmente com 38 elementos.
Joana Lourenço começou a dançar aos três anos, no Vale de Santarém. Passou por outros grupos, conheceu num deles aquele que viria a ser o marido e, depois de uma interrupção, ambos acabaram por chegar ao Rancho Folclórico d’Atalaia, onde já estavam outros familiares. É uma realidade que se repete por todo o grupo. “Todo o grupo é constituído como uma família”, resume, referindo pais, filhos, tios, padrinhos e sobrinhos que partilham ensaios, deslocações e actuações. E é também dentro dessa família alargada que muitas memórias vão sobrevivendo. Isa Almeida nem se recorda de ter aprendido a dançar. “Para mim, eu já nasci a dançar”, afirma. Uma das suas memórias mais fortes está ligada à Soltice, dança que fazia com o avô desde que começou a integrar o grupo. Na irmã, Marta Almeida, de 22 anos, a história familiar aparece na Moda da Tia Maria, cuja letra foi escrita pela bisavó. São memórias pessoais que se confundem com a missão do rancho: preservar trajes usados no século XIX, recuperar músicas e cantares antigos e reconstruir danças com base nos testemunhos daqueles que ainda guardam fragmentos desse passado.
A tarefa torna-se mais difícil à medida que desaparecem as pessoas que conheciam essas tradições. “Há pessoas que não se lembram, depois lembram-se de trechos e nós vamos pegando um aqui e outro ali”, explica Joana Lourenço. Entre as danças recuperadas, o fandango ocupa um lugar especial. Para Joana, uma actuação sem fandango “não é a mesma coisa”. Também aí a memória dos mais velhos foi decisiva, incluindo relatos de mulheres que aprendiam os passos e dançavam entre si. Manter tudo isto vivo custa dinheiro e exige disponibilidade. O rancho é sustentado em grande parte pelas próprias famílias e tem despesas com trajes, sede e deslocações. Existem apoios do município de Santarém e da Junta de Freguesia de Almoster, mas, segundo Joana Lourenço, são insuficientes para cobrir todas as necessidades.
Apesar das dificuldades, o futuro parece estar assegurado por uma geração mais nova que continua a chegar ao grupo pela mão da família. Para Joana e Isa, ficar no rancho vai muito além de preservar uma tradição. Isa vê ali “um ponto de refúgio”, um lugar onde consegue “esquecer tudo o resto e viver o momento”. No sábado, 19 de Setembro, em Ponte Celeiro, várias gerações voltaram a subir juntas ao palco. E mostraram que, naquele rancho, o folclore não vive apenas nos trajes, nas músicas ou nas danças antigas. Vive sobretudo nas pessoas que continuam a ensinar aos filhos aquilo que aprenderam com os pais e avós.


