Um pato, quatro mil pessoas e uma festa que junta gerações na Bemposta
Na Bemposta, concelho de Abrantes, há um som capaz de pôr centenas de pessoas em movimento: o “quack” de um pato que anuncia bebidas grátis. A brincadeira é uma das imagens de marca do Festival Intergeracional, conhecido como Festa do Pato, que há 12 anos junta gerações, mobiliza dez associações e atrai cerca de quatro mil pessoas.
Quando o pato faz “quack” não há tempo a perder. Quem anda pelo recinto da Festa do Pato sabe que o som significa bebidas grátis e há quem fique de ouvido atento à espera do momento. “Andam sempre à espera do som do pato para irem a correr buscar as suas bebidas”, conta Ângela Fonseca, 23 anos, presidente do Bemposta Futebol Club, uma das dez associações envolvidas na organização do Festival Intergeracional da Bemposta, que decorreu a 25 e 26 de Setembro. O pato é, na verdade, alguém da organização mascarado, que percorre o recinto com uma coluna. Quando se ouve o “quack”, começa a correria e cumpre-se uma tradição que nasceu praticamente com o festival.
A Festa do Pato começou há 12 anos, depois de os jovens da freguesia se queixarem de que havia iniciativas destinadas aos mais velhos, nomeadamente um passeio anual, mas faltava um evento pensado também para eles. A junta de freguesia pegou na ideia e nasceu a Bemposta Jovem. O conceito rapidamente se tornou mais abrangente. Ângela Fonseca recorda que os primeiros cartazes já deixavam clara a filosofia: “Todos somos jovens até aos 100 anos”. O que começou por estar essencialmente nas mãos da junta passou, com os anos, para as colectividades. Actualmente são dez associações a assegurar a organização, com o apoio da Câmara de Abrantes e da Junta de Freguesia da Bemposta. Coordenar tanta gente não é tarefa simples, admite Ângela, sobretudo porque todos têm disponibilidades diferentes.
Na cozinha, entre legumes e preparativos, O MIRANTE encontrou Susana Cojo, 55 anos, arqueóloga e natural da Bemposta. Diz, a brincar, que é voluntária “desde que nasceu”. Quando não consegue estar presente durante os dias do festival, ajuda antes, nos preparativos. “Para nós, a festa começa quando começamos a trabalhar”, afirma. Mais do que os concertos ou a comida, valoriza o reencontro com quem regressa à terra nesta altura e com pessoas que, muitas vezes, só vê uma vez por ano. Entre os voluntários há jovens de 12 anos e pessoas com cerca de 80. Susana também reconhece o poder do pato. Afinal, “toda a gente gosta de beber uma bebida à borla”. A brincadeira tornou-se uma das principais marcas do festival, juntamente com as camisolas, que todos os anos surgem com uma cor e uma frase diferentes.
Da festa nasce ajuda para quem precisa
Por detrás do ambiente descontraído existe uma vertente menos conhecida. O dinheiro gerado pelo festival não serve apenas as associações envolvidas. Parte das verbas é canalizada, através da junta de freguesia e em articulação com as colectividades, para causas sociais e situações de emergência. Este ano houve apoios destinados à região de Leiria, na sequência dos estragos provocados pela tempestade Kristin, e a Cabo Verde. Em anos anteriores a solidariedade da Bemposta chegou à Ucrânia. Também habitantes da freguesia que atravessaram situações de dificuldade já beneficiaram de ajuda financiada com dinheiro angariado nas festas. É essa mistura que ajuda a explicar a longevidade de um evento que recebe cerca de quatro mil pessoas por edição. Há música, comida, bebida fresca, camisolas, voluntários de várias idades e um pato que, de vez em quando, solta um “quack” e põe o recinto em alvoroço.


