Cultura | 10-10-2026 17:00

Festival Vapor: uma viagem ao coração ferroviário do Entroncamento

Festival Vapor: uma viagem ao coração ferroviário do Entroncamento
Comboio em miniatura transportou visitantes pelo Museu Nacional Ferroviário durante o Festival Vapor - foto António Montez

O Festival Vapor no Entroncamento é uma experiência “três em um”, onde a música, o museu e a história se fundem de forma singular dentro de um espaço monumental.

Por esse Portugal interior, o Verão é sinónimo de praças cheias, música ao vivo e o reencontro dos que partiram. No Entroncamento o Festival Vapor faz jus à portugalidade por ser uma experiência “três em um”, onde a música, o museu e a história se fundem de forma singular dentro de um espaço monumental. No Entroncamento a música ecoa entre toneladas de ferro, locomotivas históricas e memórias de carvão. O Festival Vapor acontece literalmente dentro do Museu Nacional Ferroviário, um espaço de 4 hectares que os visitantes podem explorar na mesma ocasião. Entra-se e a primeira sensação é sentir o espaço, depois perceber o desnorte; afinal estamos num museu, num terminal de mercadorias ou numa estação de comboios? Há passagens de nível, máquinas em manobras, sons e cheiros novos e do “típico festival” ainda nada… e andamos e vemos e observamos. E de repente uma visão de outros tempos, uma oficina gigante de locomotivas a vapor, todas recuperadas, brilhantes de negro e vermelho.
Do festival ainda nem um vislumbre, mas talvez nem fosse preciso, quase que se poderia ficar por ali. Acabamos por chegar ao local onde irão decorrer os concertos, onde estão instalados os expositores, as áreas de refeição e as Naves ainda maiores do que tínhamos imaginado até ao momento. É ali que estão em exposição as joias da coroa: o primeiro comboio perfeitamente conservado. E é neste lugar único, o espaço museológico, que os artistas vão actuar.
Esta simbiose entre a festa e o património ferroviário evoca uma profunda nostalgia de tempos em que o comboio era o sinónimo absoluto de progresso e ligação humana. Manuel de Novaes Cabral, presidente do Conselho Directivo da Fundação Museu Nacional Ferroviário, recorda que a viagem de comboio carrega uma mística própria, assemelhando-se ao conceito de *slow travel*. “A viagem é todo um conceito, é um conceito de tempo, de reflexão, de procura; é ainda um conceito de relação com os outros, com a natureza, a cultura e o património”, reflecte.
Essa ligação afectiva é partilhada por Nelson Cunha, presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, cujas memórias de infância se confundem com os carris: “Lembro-me da minha primeira viagem de comboio para Lisboa com a família. Ainda naqueles comboios regionais antigos em que as pessoas andavam com a cabeça de fora, não havia ar condicionado”. Vindo de uma família com forte tradição ferroviária, com um bisavô contramestre de primeira e avô e tios ligados à manutenção das linhas, o autarca personifica a identidade de uma cidade que nasceu para a ferrovia. No entanto, o passado também carrega as marcas do declínio. O país assistiu ao encerramento e desactivação de cerca de 1.000 quilómetros de linhas férreas a partir do final dos anos 80. “Durante muitos anos, nós efectivamente tiramos o pé do acelerador da ferrovia e carregámos no acelerador das estradas”, lamenta Novaes Cabral. O resultado foi o esvaziamento do interior: “Foi o contrário de fixar as pessoas. Continuamos a ter um país em que mais de dois terços da população está em menos de um terço do território, na parte litoral”.

Museu que sobrevive “com quase nada”
Se por um lado o festival traz cor, luz e milhares de visitantes, por outro expõe a dura realidade de uma instituição que luta diariamente para manter as suas portas abertas. O Museu Nacional Ferroviário, guardião de uma colecção notável de 36 mil objectos, enfrenta uma crise de recursos humanos. “O que eu gostava mais era de ter mais colaboradores e isso não depende de nós. Precisamos, como do pão para a boca, de mais colaboradores”, diz Novaes Cabral. O dirigente revela o declínio drástico do pessoal nos últimos anos: “Cheguei aqui em 2020 a estas funções e em 2020 tinha 26 colaboradores num quadro de 33... E hoje temos 16”. Gerir 4 hectares de exposição com apenas 16 pessoas; incluindo atendimento, oficinas, limpeza e administração; é, nas palavras do presidente, “trabalhar com nada”. “Nós conseguimos resolver as questões financeiras há cerca de um ano. Mas agora a questão dos recursos humanos é absolutamente determinante”, adverte.
É nesta lacuna profunda que os voluntários deixam de ser apenas ajudantes e passam a ser a verdadeira alma e suporte do museu. Mónica, cujo marido trabalha na CP, começou como voluntária numa fase em que estava desempregada e acabou por criar uma ligação umbilical com o espaço. Na conversa com O MIRANTE destaca a importância de voluntários dedicados e especializados, como o jovem Bruno: “O Bruno é um miúdo assim muito novinho... que sempre que pode vem cá. Ele adora e percebe bastante disto. E é bom, a gente precisa de pessoas como ele”. “Acho que as pessoas têm interesse em ficar aqui a fazer o voluntariado por causa de ser um festival dentro do museu”, explica Joana, voluntária desde 2022. “É o segundo maior museu de Portugal e acho que é muito interessante, porque é um museu de comboios e não se vê todos os dias um museu que tenha assim umas oficinas grandiosas, cheias de coisas antigas, e ainda mais com um festival a decorrer aqui dentro. Os cantores actuam junto aos comboios, é um festival mais fora da caixa”. Para Carlos, voluntário vindo da Azambuja, o formato intimista e temático do festival é o verdadeiro atractivo. O ambiente atrai também quem procura aprender os bastidores da cultura, como Catarina, voluntária vinda de Alcanena.

Máscaras de outros tempos e o fascínio do minicomboio
O festival ainda nem começou, mas caminhar pelas naves e plataformas do museu durante o Festival Vapor é já fazer parte de uma realidade paralela, onde o tempo parece ter sofrido um corte. Pelos corredores do ferro cruzam-se visitantes de todas as idades. Cartolas adornadas com engrenagens de bronze, óculos de aviador, espartilhos de cabedal, relógios de bolso e adereços mecânicos transformam o público em personagens saídas de uma obra de ficção científica do século XIX. Para os mais novos, o espanto é imediato e as perguntas multiplicam-se ao ritmo dos pistões. É aí que entra o papel pedagógico e paciente dos voluntários, sempre prontos a explicar que aquela indumentária é uma homenagem artística à era do vapor e à resiliência do ferro, uma forma de trazer o passado para o futuro.
Mas o verdadeiro ponto de encontro de gerações é o mini comboio do museu. Graúdos e miúdos alinham-se na mesma fila, partilhando o entusiasmo de andar numa réplica em miniatura que serpenteia pelo recinto. Para as crianças, a experiência é uma descoberta absoluta que gera uma torrente de dúvidas curiosas dirigidas aos voluntários de serviço: “Como é que este comboio pequenino funciona?”, “O comboio grande também andava a carvão?”, “Como é que o vapor faz a máquina andar?”. Os voluntários, muitos deles jovens que herdaram a paixão ferroviária dos seus antepassados, desdobram-se em explicações, ajudando a saciar a curiosidade dos pequenos exploradores.

O renascer da esperança no futuro da região

Apesar das dificuldades do presente, o Entroncamento recusa deixar-se vencer pelo isolamento. O Festival Vapor funciona como uma metáfora perfeita: ao mesmo tempo que celebra a nostalgia do vapor e do ferro, projecta a esperança de que a ferrovia volte a ser o motor de desenvolvimento do país e do interior. “O Entroncamento ainda é, pode e vai continuar a ser uma referência a nível nacional do que a ferrovia representa”, assegura Nelson Cunha. O autarca não revela detalhes, mas diz que existem planos para criar uma oferta nova, histórica, mas diferenciadora para as linhas da baixa do Médio Tejo em pontos de interesse turístico, como é o Castelo de Almourol”. Mas o quê? Um comboio a vapor, perguntamos. O presidente não se adiantou muito: “Estamos a analisar a viabilidade, trata-se de um tema com componentes complexas e custos avultados, a seu tempo, revelaremos mais”. Para Manuel de Novaes Cabral, o caminho do futuro já está traçado e exige determinação política para além dos ciclos governativos. O museu acompanha este movimento integrando novas peças recuperadas, como a locomotiva “Espanhola”, a “NOAB” e a histórica do serviço postal. “Nós não queremos apenas contar a história, nós queremos também ser participantes no novo discurso ferroviário”, conclui o responsável pelo museu.
Quando as luzes do Festival Vapor se apagaram e a música se silenciou nas naves das antigas oficinas, ficou a certeza de que o Entroncamento continua a ser o ponto de encontro, onde o passado e o futuro de Portugal se cruzam sobre carris. Através da resiliência da sua comunidade e da entrega generosa dos seus voluntários, a promessa de um interior dinâmico e conectado mantém-se viva, teimosamente nos carris.

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