Cultura | 10-10-2026 18:00

Na Marmeleira, cada marmelada tem uma história de família

Na Marmeleira, cada marmelada tem uma história de família
Helena Ribeiro e Rogério Loureiro - foto O MIRANTE

Festival da Marmelada voltou a colocar o marmelo no centro das atenções na Marmeleira, concelho de Rio Maior. Entre receitas herdadas de mães e avós e novas experiências gastronómicas, produtores mostram que preservar a tradição também é uma forma de manter viva a identidade da terra.

Na Marmeleira, fazer marmelada é muito mais do que aproveitar o fruto que dá nome à vila. É repetir gestos aprendidos em criança, recuperar receitas guardadas na memória e manter viva uma tradição que atravessa gerações. Histórias de mães e avós voltaram a cruzar-se no Festival da Marmelada, realizado a 4 de Outubro, no Largo da República, onde o marmelo foi protagonista de uma jornada dedicada aos sabores e à identidade da terra. Promovido pelo NUPAE – Núcleo Património e Emoções, o festival juntou produtores, habitantes e visitantes em torno de um fruto que continua a dar margem para experimentar. Marmelada, geleia, bolos e tartes dividiram espaço com licores, gin e outras criações, numa combinação entre receitas antigas e novas formas de trabalhar o marmelo.
Bruno e Tatiana Miguel, de 40 e 36 anos, sabem bem o que significa essa ligação à tradição. O casal, que se casou este ano, conquistou o primeiro lugar no concurso de melhor marmelada e apresentou uma banca onde não faltavam propostas: marmelada, geleia, bolo, tarte com recheio de marmelo, licor e gin, além de uma antiga receita familiar de “marmelo tocado pelo anis”. Tatiana é natural da Marmeleira e vive a poucos metros do local do festival. Bruno é de Assentiz e os dois têm participado na iniciativa praticamente desde o início, tendo falhado apenas a edição do ano passado. Grande parte do que apresentam nasceu dentro de casa. “A marmelada foi tudo coisas que aprendemos com as nossas mães”, contam. O gin surgiu também do gosto de Bruno, que se assume como apreciador da bebida, e tornou-se um dos produtos mais procurados da banca, juntamente com a marmelada. Para o casal, o festival é também uma montra para aquilo que se faz na terra e uma forma de atrair visitantes à Marmeleira.
De Benedita, concelho de Alcobaça, chegaram Helena Ribeiro e Rogério Loureiro, responsáveis pelo Mercadinho da Avenida. Estrearam-se no festival com marmelada, bolo recheado com geleia de marmelo, rolinhos de limão e bolo de ferradura. O espaço que gerem nasceu em 2024, da vontade de apostar na produção de doces e bolos, privilegiando, “tanto quanto possível”, produtos regionais e caseiros. Também aqui a marmelada tem raízes familiares, embora cada uma das famílias tenha a sua maneira de a preparar. Para Rogério Loureiro, participar pela primeira vez num evento desta natureza já compensou. “Aparecer vale sempre a pena”, afirma, destacando a possibilidade de criar contactos e mostrar o trabalho que desenvolvem.

Marmelada feita “à antiga”
Cristina Ferreira, 53 anos, natural da Marmeleira, conhece bem o festival e os seus concursos. Já venceu por duas vezes consecutivas a eleição da melhor marmelada e este ano regressou com geleia, marmelada e quartos de marmelo. “A minha mãe e a minha avó já faziam, então eu segui-lhes o exemplo”, explica. A receita continua próxima daquela que aprendeu em casa: os marmelos são cozinhados numa panela, o açúcar é acrescentado durante o processo e só no final é feita a passagem e o batimento da marmelada até atingir o ponto pretendido. Para Cristina, uma boa marmelada começa num bom fruto, mas o método também conta. Por isso continua a preferir a panela e o lume, “à antiga”. Apesar de ser talhante de profissão, a criação do festival levou-a a dedicar mais tempo à marmelada, que passou também a produzir para venda. Mais do que gastronomia, vê no evento uma forma de valorizar a identidade da Marmeleira e trazer gente à vila.
Isabel Freixieiro, 58 anos, natural de Rio Maior e casada com um homem da Marmeleira, também não tem faltado às edições do festival. A memória leva-a à infância, quando a mãe preparava grandes quantidades de marmelada para uma família numerosa. Hoje continua a tradição, sobretudo para oferecer a familiares e amigos. Ao festival leva também a vontade de experimentar: tortas, cheesecake, geleia, marmelada de alecrim, marmelada com nozes e vinho do Porto e bolo de marmelo são algumas das propostas. Mas há uma dimensão que não cabe nas bancas nem nas receitas. “Há aqui pessoas que já não via há dois ou três anos. O festival também é importante para conviver e sair mais de casa”, conta.

Bruno e Tatiana Miguel - foto O MIRANTE
Cristina Ferreira - foto O MIRANTE
Isabel Freixieiro - foto O MIRANTE

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