A camaradagem dos Boinas Verdes resiste ao tempo em Tancos
Romaria Nacional de São Miguel Arcanjo, padroeiro dos paraquedistas, voltou a juntar militares de várias gerações numa jornada marcada pelo orgulho, camaradagem e memórias que resistem ao tempo.
O andor de São Miguel Arcanjo chegou ao Cais Miguel Pombeiro, em Vila Nova da Barquinha, vindo de Tancos. À sua espera estavam paraquedistas, antigos militares, familiares e convidados de vários pontos do país para a quarta edição da Romaria Nacional em honra do santo padroeiro dos paraquedistas. Por entre boinas verdes, abraços e reencontros, percebe-se que ali as patentes, as idades e as décadas que separam diferentes gerações perdem importância. Há homens que não se vêem há muito, outros que regressam todos os anos e histórias que continuam vivas muitos anos depois de terminado o serviço militar.
Aos 87 anos, Jorge dos Anjos Martins continua a apresentar-se como paraquedista. Terminou o curso em 1961 e passou 28 anos no activo. Veterano da Guerra do Ultramar, guarda memórias que ainda hoje custam a revisitar. O primeiro salto em cenário de guerra foi em Luanda. O segundo, na Serra da Canda, ficou-lhe gravado para sempre porque foi aí que perdeu o melhor amigo. Não quer aprofundar o episódio. Há recordações da guerra que o tempo não tornou mais fáceis de contar. Fala com maior entusiasmo da camaradagem. “Cada soldado é um amigo que eu tenho”, afirma a O MIRANTE. Houve um momento em que pensou abandonar a tropa, mas o comandante dos Grifos convenceu-o a ficar. Ficou, fez o juramento de fidelidade, deu inúmeros cursos de paraquedismo e recebeu várias medalhas ao longo da carreira. Do último salto também não se esquece. Foi à vertical da Capela de Tancos, em direcção ao Arrepiado. Já experiente e à vontade no céu, resolveu “brincar no ar”. A brincadeira terminou com um pé partido.
O salto para o desconhecido
Rui Moreira da Silva, 64 anos, natural de Vila do Conde, entrou para os Boinas Verdes em 1982, na então Base Escola de Tropas Paraquedistas. Os nomes e as estruturas foram mudando ao longo dos anos até ao actual Regimento de Paraquedistas, mas há algo que, garante, permaneceu intacto. “Há uma evolução histórica, mas o sentimento e a entrega são sempre os mesmos”. Recorda o primeiro salto como uma descoberta e um salto para o desconhecido, carregado de ansiedade e expectativa. No fim estava a boina verde. “É atingir um objectivo que, para nós, é muito importante”, explica. Define o curso de paraquedismo como algo mágico, intenso e exigente, física e psicologicamente. Foi também ali que aprendeu algumas das lições que levou para o resto da vida. Antes estudava e tinha os pais a fazer tudo para lhe proporcionar uma vida confortável. De repente, teve de conquistar aquilo que queria, cumprir horários e ultrapassar limites. Com os anos, até a forma de encarar um salto mudou. A experiência substituiu o desconhecido por responsabilidade. Dos paraquedistas levou o espírito de grupo, a disciplina, a preparação física e psicológica e a capacidade de enfrentar adversidades. Valores que procurou transmitir aos filhos e aos netos.
Disseram-lhe que era pequeno demais
Manuel Martins tem 71 anos, mas entre os paraquedistas poucos precisam desse nome para saber quem ele é. É o “Serrinha”, alcunha que leva consigo desde os tempos da tropa. Natural de São Romão, na Serra da Estrela, entrou em 1975, com 19 anos e apenas 49,5 quilos. Olhavam para aquele jovem franzino e diziam-lhe que não ia conseguir. Meio século depois, a resposta surge acompanhada por um sorriso: “Não foi fácil, mas cá estou”. O primeiro salto confirmou que o peso podia ser um problema. O vento levou-o e “deu cabo do braço”. Ainda assim, garante que foi o melhor de todos, precisamente porque não sabia o que o esperava. Cinquenta anos depois de se tornar paraquedista voltou a saltar, desta vez num salto comercial, em Évora. Acredita que terá sido o último. Também não sabe explicar ao certo o que o levou a escolher os Boinas Verdes. Talvez o gosto pela farda, talvez o feitio “destemido”. Depois da vida militar, o “Serrinha” percorreu mundo. Trabalhou quatro anos em Israel, no sector têxtil, e saiu quando começou a Guerra do Golfo, numa viagem que o levou pela Jordânia e pelo Egipto até apanhar um avião da Força Aérea Portuguesa com destino a Figo Maduro, em Lisboa. Mais tarde emigrou para a Suíça, onde viveu durante 25 anos. Há distâncias, profissões e décadas pelo meio, mas os Boinas Verdes continuam a mexer com ele. Esteve presente nas quatro edições da Romaria de São Miguel Arcanjo e não pensa quebrar a tradição. Enquanto puder, garante, continuará a regressar.


